Devemos temer os chineses?

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As compras de empresas brasileiras pelas chinesas mais que dobraram neste ano. Setores considerados estratégicos, como agricultura e energia, deveriam ser preservados.
 
Nos primeiros oito meses do ano, os chineses mais que dobraram seus investimentos em aquisições no Brasil. Foram quase US$ 11 bilhões, ante US$ 5 bilhões no ano passado e os irrisórios US$ 200 milhões em 2014. Os problemas financeiros das empresas brasileiras, somados à crise macroeconômica, formaram um prato cheio para um país que está altamente capitalizado em busca de pechinchas pelo mundo. O apetite chinês é diversificado e muitos negócios estão em curso. No setor de energia, a State Grid deve concluir, nas próximas semanas, a compra da participação da Camargo Corrêa na distribuidora CPFL, por cerca de US$ 9 bilhões; na mineração, a CBSteel está próxima de anunciar a aquisição de uma parcela da CSN na Congonhas Mineração, por aproximadamente US$ 5 bilhões; e nas finanças, o banco Indusval estaria em tratativas avançadas com o Shangai Pengxin.
 
O avanço dos asiáticos não se restringe aos ativos brasileiros. Em 2015, a China investiu US$ 145 bilhões mundo afora. No mesmo período, os investimentos estrangeiros no país foram de US$ 135 bilhões. A discussão sobre os limites dessa conquista está aberta. Os franceses buscam entender como o vinho, um de seus símbolos, passou a ser alvo de investidores chineses. Desde 2011, a média anual de aquisição de vinícolas foi de 40 a 50. Até o bilionário Jack Ma, do Alibaba, entrou nesse negócio e, neste ano, comprou três chateaux. Os italianos não se conformam de ver o time de futebol Internazionale e a Pirelli sob o controle de empresários de Pequim.
 
Mais importante do que o orgulho ferido por ver empresas-símbolo nas mãos de estrangeiros indesejados é entender quais setores precisam ser preservados dessa voracidade do dragão. Nesse ponto, o Brasil tem a aprender com os Estados Unidos. Principal destino do dinheiro chinês, os americanos impuseram algumas restrições, como para a compra de empresas ligadas à tecnologia. O argumento são os riscos de roubo de informações e ataques cibernéticos. Devemos temer os chineses? Quando eles avançam sobre setores brasileiros considerados estratégicos e de interesse nacional, sim. Não parece saudável ver o setor de energia sendo dominado por investidores com muitos yuans.
 
Eles são os principais alvos dos próximos leilões. A State Grid vai se tornar, em pouco tempo, a segunda maior empresa do setor, atrás apenas da Eletrobras. Com a CPFL, ela se transforma na principal distribuidora de energia do País. Além disso, tem participação relevante nas linhas de transmissão da usina de Belo Monte – que pode aumentar caso fique com a parte da falida empresa espanhola Abengoa. Na geração, a China Three Gorges abocanhou as hidrelétricas de Jupiá e de Ilha Solteira, que pertenciam à Cesp.
 
Mesmo com um regulador local, é preocupante ver que o ciclo completo da luz começar a ser controlado por grupos pertencentes a um único país. Nos próximos meses, essa discussão vai se estender para a liberação da venda de terras para estrangeiros. Os chineses são os principais interessados em produzir alimentos para atender à demanda que vai crescer nos próximos 30 anos, quando 300 milhões de pessoas ascenderão à classe média. Por isso, a China sabe o que quer do mundo para o seu grande projeto. Cabe a cada um dos países delimitar até onde eles podem ir.
 

 

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