O gigante chinês acordou

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Dinheiro não é problema para a State Grid, que vai comprar a CPFL. A empresa já se aproxima da segunda posição do setor elétrico no País e promete mais R$ 15 bilhões de investimentos até o fim da década

O avaliador: Cai Hongxian, o CEO no Brasil, analisa há anos quais são os melhores ativos do setor no País e sugere as melhores aquisições para a matriz

O avaliador: Cai Hongxian, o CEO no Brasil, analisa há anos quais são os melhores ativos do setor no País e sugere as melhores aquisições para a matriz ( foto: Leo Pinheiro/Valor/Folhapress)
 
O poderio econômico da State Grid, empresa de controle estatal chinês, é inegável. A segunda maior empresa do mundo, atrás da varejista americana Walmart, tem faturamento anual de US$ 329,6 bilhões, lucro de US$ 10,2 bilhões e 1 milhão de funcionários. Mas, como ela chegou ao Brasil apenas em 2010, ainda não é tão familiar por aqui. Para quem não acompanha o setor de energia, pode até parecer que a sua atuação local é tímida. No entanto, durante seis anos, a State Grid foi acumulando ativos e começou a desenvolver projetos próprios, como os dois “linhões” que vão transmitir a energia gerada na usina de Belo Monte (PA) para o sul do País.
 
Essa “timidez” custou à empresa R$ 9,7 bilhões em pouco mais de cinco anos de operação, em compras que incluem o controle ou participação em 14 empresas, além de garantir a presença em 9 projetos de transmissão de energia. Mas, agora, ficou impossível deixar de notá-la como uma grande força do mercado nacional. A State Grid está adquirindo a CPFL Energia, por uma quantia que deve superar os R$ 25 bilhões. Na quarta-feira 28, ela fechou a negociação com os controladores da empresa, que inclui a Camargo Corrêa, o fundo de pensão Previ e a Bonaire Participações, que reúne fundos como Funcesp, Petros, Sistel e Sabesprev.
 
Com isso, a State Grid se encaminha para se tornar a segunda maior empresa do setor elétrico no Brasil. Em 2012, antes de vencer a licitação para operar o “linhão” de Belo Monte, o faturamento da State Grid era de R$ 630 milhões no Brasil. Agora, só a operação da CPFL vai contribuir com mais de 30 vezes desse valor. No ano passado, a companhia paulista divulgou receita de R$ 20 bilhões, ficando próxima dos R$ 21 bilhões da Cemig, e longe apenas da estatal Eletrobras, de R$ 32,6 bilhões, mas que está em processo de venda de ativos.
 
Quando deu a sua primeira entrevista à DINHEIRO, em 2014, o chinês Cai Hongxian, CEO da empresa no Brasil, lidava com o seu primeiro projeto greenfield local, a instalação do “linhão” da usina Teles Pires, e prometia expansão. “Nossa estratégia é estabelecer uma plataforma de investimentos consistente não só em transmissão, como também em geração e distribuição”, disse. Não precisou de muito tempo para isso se concretizar. Ao se contabilizar os investimentos feitos e a compra da CPFL, a empresa acumula aportes de R$ 35 bilhões no Brasil. 
 
Mas a State Grid tem ainda R$ 15 bilhões previstos para os projetos em andamento, e conta com um canal direto com o comando na China para acessar um orçamento quase ilimitado para aquisições. Dessa forma, ela virou grande candidata a todo bom ativo negociado no País, com potencial para entrar como favorita em qualquer disputa. A canadense Brookfield, que já administra mais de R$ 40 bilhões no País, talvez seja a única competidora à altura. “O mercado brasileiro está num momento de preços baixos, enquanto há capital disponível no mundo sendo pobremente remunerado”, afirma Cláudio Salles, presidente do Instituto Acende Brasil.
 
O problema está na perda de credibilidade do País. Mas o movimento da State Grid para administrar a CPFL indica que ela não se importa tanto com isso. “Ninguém faz um investimento desse porte para especular”, diz Salles. “Ela dá crédito para o setor energético brasileiro.” Além disso, o País não se encontra em posição de criar resistências comuns em outros países. Na Austrália, por exemplo, a chegada da chinesa causou discussões sobre se uma empresa controlada por um governo estrangeiro deveria controlar ativos estratégicos, como linhas de transmissão.
 
No Brasil, a presença da State Grid é vista como uma solução. Em especial, o interesse que teria demonstrado em empresas problemáticas, como a Abengoa e a Renova. Aquisições que, no entanto, podem não se concretizar por falta de rentabilidade. A equipe do já flamenguista Hongxian está, há anos, analisando os ativos brasileiros e parece não estar disposta a avançar em operações presas a contratos de concessão deficitários.
 
A Renova poderia servir para cumprir metas estabelecidas pelo governo chinês para as suas empresas – muito voltadas à geração termelétrica – evoluírem em energia renovável. Mas agregar a CPFL cumpre parte desse papel. Atualmente, 94% da energia da companhia paulista vem de fontes renováveis. O interesse do mercado, agora, é adivinhar os próximos passos da State Grid. A empresa já sinalizou que fará ofertas na licitação de 24 lotes de projetos de transmissão de energia, com investimentos previstos de R$ 12,6 bilhões, marcada para o dia 28 de novembro. Até onde a gigante chinesa pode chegar no Brasil é difícil de prever.
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