Caminhos errados

*Osmar José de Barros Ribeiro

A prática de uma política regional falta de coerência e caracterizada, de um lado, pelos impulsos de um governante deslumbrado com a sua projeção pessoal na cúpula internacional e, de outro, pela ideologização imperante nos procedimentos diplomáticos brasileiros, vem permitindo a ocorrência de episódios lamentáveis para o Brasil.

Um breve resumo: a invasão das instalações da Petrobrás na Bolívia (que contou com a “compreensão” e apoio do presidente brasileiro); a ameaça equatoriana de expulsar uma empresa brasileira e suspender o pagamento de uma dívida com o BNDES; o absurdo acerto feito com um vacilante presidente paraguaio, com a finalidade última de reforçar o prestígio político deste último: a promessa de rever o Tratado de Itaipu. Isso, sem falar na lamentável atuação da diplomacia brasileira na crise hondurenha.

A União das Nações Sul-americanas (UNASUL), criada para estabelecer um órgão de integração regional, até agora pouco produziu além de reuniões estéreis nas quais pontificou, com a sua verborréia habitual e inútil, o presidente venezuelano. No mês de agosto, por exemplo, na capital equatoriana, deu-se mais um capítulo dessa novela. Com Chávez e seus seguidores deblaterando contra a instalação de pessoal norte-americano em bases militares colombianas e a reativação da IV Frota dos EUA, o presidente brasileiro, do alto das suas tamancas, houve por bem convocar o seu igual estadunidense para apresentar explicações quanto a tais fatos. Claro está sua fanfarronada não teve êxito.

Considerando que Lula, ao lado de Fidel Castro, foi o criador do Foro de São Paulo; considerando que os partidos de esquerda ora no poder na América do Sul são partícipes do Foro; considerando que as FARC e outras organizações revolucionárias fazem parte do mesmo, a insistência com que vêm sendo combatida a decisão colombiana de acordar medidas com os EUA para o combate ao narcotráfico, leva a crer que os criadores da UNASUL (um Foro de São Paulo “legalizado”) sonham em impor um regime de soberania restrita aos Estados que a conformam.

Sob esse aspecto, é de se perguntar: que espécie de auxílio e/ou cooperação, ao longo de mais de quarenta anos, os países vizinhos deram à Colômbia em sua luta contra os narcoguerrilhei-ros? É público e notório que tanto no Equador quanto na Venezuela, em zonas fronteiriças, as FARC mantém bases e, pela vasta rede hidro-gráfica, além do transporte por meios terrestres e aéreos, recebe insumos, inclusive do Brasil, para o pro-cessamento da cocaína.

Naquilo que concerne ao nosso País, cuja cúpula governamental ainda guarda receios terceiro-mundistas em relação aos EUA vendo, em diferentes oportunidades, ameaças à nossa soberania na região, há uma total e absoluta incoerência de procedimentos. O presidente brasileiro protesta, sempre que tem oportunidade e em particular quando em foros internacionais, contra a presença de norte-americanos na Colômbia (fazendo coro com o venezuelano Hugo Chávez) e contra a reativação da IV Frota. No entanto, omite-se quando o assunto é a ligação de Hugo Chávez e de Evo Morales com a Rússia, à qual ofereceram facilidades para a instalação de bases militares.

Outro aspecto desagradável da “diplomacia presidencial”, provavelmente orientada por Marco Aurélio Garcia, seu assessor para assuntos internacionais, foi a até hoje mal explicada interferência da diplomacia brasileira num problema que somente a Honduras diz respeito – deposição de “Mel” Zelaya, feita de conformidade com a Constituição hondurenha – e que hoje está valendo um processo contra o Brasil na Corte Internacional de Haia.

Enquanto isso, de forma absolutamente hipócrita, nosso governo atende servilmente às exigências de ONGs internacionais no que respeita à demarcação de terras indígenas forçando, no caso da Raposa/Serra do Sol, a retirada dos não-índios de uma área de fronteira.

Além do mais, não considera que a criação de gigantescas reservas indígenas numa área quase despovoada por brasileiros, ameaça de fragmentação o Estado Nacional.

Aproximam-se as eleições de 2010. Os candidatos cogitados para a presidência da República, todos eles, inclusive os apresentados como sendo da “oposição”, são de corte esquerdista. A eleição de qualquer um deles significará tão somente mudança de métodos, não de objetivos e, mais do que nunca, continuaremos a trilhar os caminhos errados que nos levarão, mais dia menos dia, a sérios conflitos internos. Quando isso acontecer, haverá choro e ranger de dentes.

*Coronel
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