LIVRO - " Palavras do Papa Bento XVI no Brasil"

PALAVRAS AOS JOVENS - Pág. 22 a 26

Os anos que vós estais vivendo são os anos que preparam o vosso futuro. O "amanhã" depende muito de como es­tais vivendo o "hoje" da juventude. Diante dos olhos, meus queridos jovens, tendes uma vida que desejamos seja longa. Mas é uma só, é única: não a deixeis passar em vão, não a desperdiceis. Vivei com entusiasmo, com alegria, mas, sobretudo, com senso de responsabilidade.

Muitas vezes sentimos trepidar nossos corações de pastores constatando a situação de nosso tempo. Ouvimos falar dos medos da juventude de hoje. Revelam-nos um enorme déficit de esperança: medo de morrer, num momento * em que a vida está desabrochando e procura encontrar o próprio caminho da realização; medo de sobrar, por não descobrir o sentido da vida; e medo de ficar desconecta-do diante da estonteante rapidez dos acontecimentos e das comunicações. Registramos o alto índice de mortes entre os jovens, a ameaça da violência, a deplorável proliferação das drogas que sacode até a raiz mais profunda a juventude de hoje. Fala-se, por isso, seguidamente, de uma juventude perdida. Mas olhando para vós, jovens aqui presentes, que irradiais alegria e entusiasmo, assumo o olhar de Jesus: um olhar de amor e confiança, na certeza de que vós encontrastes o verdadeiro caminho. Sois jovens da Igreja. Por isso eu vos envio para a grande missão de evangelizar os jovens e as jovens, que andam por este mundo errantes, como ovelhas sem pastor.

Sede os apóstolos dos jovens. Convidai-os para que venham convosco, façam a mesma experiência de fé, de esperança e de amor; encontrem-se com Jesus, para se sentirem realmente amados, acolhidos, com plena possibilidade de realizar-se. Que também eles e elas descubram os caminhos seguros dos mandamentos e por eles cheguem até Deus. Podeis ser protagonistas de uma sociedade nova se procurais pôr em prática uma vivência real inspirada nos valores morais universais, mas também um empenho pessoal de formação humana e espiritual de vital importância. Um homem ou uma mulher despreparados para os desafios reais de uma correta interpretação da vida crista do seu meio ambiente será presa fácil de todos os assaltos do materialismo e do laicismo, sempre mais amantes em todos os níveis. Sede homens e mulheres livres e responsáveis; fazei da família um foco irradiador de paz e de alegria; sede promotores da vida, do início ao seu natural declínio; amparai os anciãos, pois eles merecem respeito e admiração pelo bem que vos fizeram.

O papa também espera que os jovens procurem santificar seu trabalho, fazendo-o com competência técnica e com laboriosidade, para contribuir ao progresso de todos os seus irmãos e para iluminar com a luz do Verbo todas as atividades humanas (cf. Lumen gentium, n. 36). Mas, sobretudo, o papa espera que saibam ser protagonistas de uma sociedade mais justa e mais fraterna, cumprindo as obrigações diante do Estado: respeitando as suas leis; não se deixando levar pelo ódio e pela violência; sendo exemplo de conduta cristã no ambiente profissional e social, distinguindo-se pela honestidade nas relações sociais e profissionais. Tenham em conta que a ambição desmedida de riqueza e de poder leva à corrupção pessoal e alheia; não existem motivos para fazer prevalecer as próprias aspirações humanas, sejam elas econômicas ou políticas, com a fraude e o engano.

Definitivamente, existe um imenso panorama de açao no qual as questões de ordem social, económica e política ganham um particular relevo, sempre que haurirem sua fonte de inspiração no Evangelho e na Doutrina Social da Igreja.

A construção de uma sociedade mais justa e solidária, reconciliada e pacífica; a contenção da violência e as iniciativas que promovam a vida plena, a ordem democrática e o bem comum e, especialmente; aquelas que visem a eliminar certas discriminações existentes nas sociedades latino-americanas e não são motivo de exclusão, mas de recíproco enriquecimento. Tende, sobretudo, um grande respeito pela instituição do sacramento do matrimónio. Não poderá haver verdadeira felicidade nos lares se, ao mesmo tempo, não houver fidelidade entre os esposos. O matrimónio é uma instituição de direito natural, que foi elevado por Cristo à dignidade de sacramento. É um grande dom que Deus fez à humanidade. Respeitai-o, venerai-o. Ao mesmo tempo, Deus vos chama a respeitar-vos também no namoro e no noivado, pois a vida conjugal que, por disposição divina, está destinada aos casados é somente fonte de felicidade e de paz na medida em que souberdes fazer da castidade, dentro e fora do matrimónio, um baluarte das vossas esperanças futuras. Repito aqui, para todos vós, que "o eras quer nos conduzir para além de nós próprios, para Deus, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, renúncias, purificações e saneamentos" (carta encíclica Deus caritas est, 25.12.2005, n. 5). Em poucas palavras, requer espírito de sacrifício e de renúncia por um bem maior, que é precisamente o amor de Deus sobre todas as coisas. Procurai resistir com fortaleza às insídias do mal existente em muitos ambientes, que vos leva a uma vida dissoluta, paradoxalmente razia, ao fazer perder o bem precioso da vossa liberdade e da vossa verdadeira felicidade. O amor verdadeiro "procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará existir para o outro" (ibidem, n. 7); por isso será sempre mais fiel, indissolúvel e fecundo. Para isso contais com a ajuda de Jesus Cristo, que, com a sua graça, fará isso possível (cf. Mt 19,26). A vida de fé e de oração vos conduzirá pêlos caminhos da intimidade com Deus, c de compreensão da grandeza dos planos que ele cem para cada um.

PALAVRAS AOS BISPOS - Pág. 58 E 59

Não é nenhuma novidade a constatação de que vosso País convive com um déficit histórico de desenvolvimento social, cuacaf traços extremos são o imenso contingente de brasileiros vivendo em situação de indigência e uma desigualdade na distribuição da renda que atinge patamares muito elevados. A vós, veneráveis irmãos, como hierarquia do Povo de Deus, vos compete promover a busca de soluções novas e cheias de espírito cristão. Uma visão da economia e dos problemas sociais a partir da perspectiva da Doutrina Social da Igreja leva a considerar as coisas sempre do ponto de vista da dignidade do ser humano, que transcende o simples jogo dos fatores econômicos. Deve-se, por isso, trabalhar incansavelmente para a formação dos políticos, dos brasileiros que têm algum poder decisório, grande ou pequeno e, em geral, de todos os membros da sociedade, de modo que assumam plenamente as próprias responsabilidades e saibam dar um rosto humano e solidário à economia.

Ocorre formar nas classes políticas e empresariais um autêntico espírito de veracidade e de honestidade. Quem assume uma liderança na sociedade deve procurar prever aï consequências sociais, diretas e indiretas, a curto e a longo prazo, das próprias decisões, agindo segundo critérios de maximização do bem comum, em vez de procurar ganâncias pessoais.

PALAVRAS DURANTE O ENCONTRO NA FAZENDA DA ESPERANÇA- Pág. 69 e 70

Vocês devem ser os embaixadores da esperança! O Brasil possui uma estatística, das mais relevantes, no que diz respeito à dependência química de drogas e entorpecentes. E a América Latina não fica atrás. Por isso, digo aos que comercializam a droga que pensem no mal que estão provocando a uma multidão de jovens e de adultos de todos os segmentos da sociedade: Deus vai-lhes exigir satisfações. A dignidade humana não pode ser espezinhada desta maneira. O mal provocado recebe a mesma reprovação dada por Jesus aos que escandalizavam os "pequeninos", os preferidos de Deus (cf. Mt 18,7-10).

Mediante uma terapia, que inclui a assistência médica, psicológica e pedagógica, mas também muita oração, trabalho manual e disciplina, já são numerosas as pessoas, sobretudo jovens, que conseguiram livrar-se da dependência química e do álcool e recuperar o sentido da vida.

Desejo manifestar o meu apreço por esta Obra, que tem como alicerce espiritual o carisma de São Francisco e a espiritualidade do Movimento dos Focolares.

A reinserçâo na sociedade constitui, sem dúvida, uma prova da eficácia da iniciativa de vocês. Mas o que mais chama atenção, e confirma a validade do trabalho, são as conversões, o reencontro com Deus e a participação ativa na vida da Igreja. Não basta curar o corpo, é preciso adornar a alma com os mais preciosos dons divinos conquistados através do Batismo.

Vamos agradecer a Deus por ter querido colocar tantas almas no caminho de uma esperança renovada, com o auxílio do Sacramento do perdão e da celebração da Eucaristia.

PALAVRAS NA SESSÃO INAUGURAL DA V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO DA AMÉRICA LÁTINA E DO CARIBE- Pág. 106 e 107/109 e 110/117 a 120/121 e 122/126 e 127

Pág. 106 e 107

Na América Latina e no Caribe, assim como em o regiões, evoluiu-se para a democracia, ainda que haja motivos de preocupação ante formas de governo autoritárias ou sujeitas a certas ideologias que eram consideradas superadas, e que não correspondem à visão cristã do homem e da sociedade, como nos ensina a Doutrina Social da Igreja. Por oucra parte, a. economia liberal de alguns países latino-americanos deve ter presente a equidade, pois continuam aumentando os setores sociais que se vêem provados cada vez mais por uma enorme pobreza ou inclusive espoliados dos próprios bens naturais.

Nas Comunidades eclesíais da América Latina é notável a maturidade na fé de muitos leigos e leigas ativos e entregues ao Senhor, junto, com a presença de muitos abnegados catequistas, de tantos jovens, de novos movimentos eclesiais e de recentes Institutos de vida consagrada. Demonstram-se fundamentais muitas obras católicas educativas, assistenciais e hospitalares. Percebe-se, contudo, um certo enfraquecimento da vida cristã no conjunto da sociedade e da própria pertença à Igreja Católica, devido ao secularismo, ao hedonismo, ao Índifèrentismo e ao proselitismo de numerosas seitas, de religiões animistas e de novas expressões pseudo-religíosas.
 

 



Pág. 109 e 110

Ante a prioridade da fé em Cristo e da vida "nele", formulada no título desta V Conferência, poderia surgir também outra questão: Esta prioridade não poderia ser acaso uma fuga para o intimismo, para o individualismo religioso, um abandono da realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo, e uma fuga da realidade para um mundo espiritual?

Como primeiro passo, podemos responder a esta pergunta com outra: O que é esta "realidade"? O que é o real? São "realidade" só os bens materiais, os problemas sociais, econômicos e políticos? Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes no último século, erro destrutivo, como demonstram os resultados tanto dos sistemas marxistas como inclusive dos capitalistas. Falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundante, e por isso decisiva, que é Deus. Quem exclui Deus de seu horizonte falsifica o conceito de "realidade" e, em consequência, só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas.

A primeira afirmação fundamental é, pois, a seguinte:
Só quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano. A verdade dessa tese é evidente ante o fracasso de todos os sistemas que colocam Deus entre parênteses.
 



Pág. 117 a 120

Os problemas sociais e políticos


Chegados a este ponto podemos nos perguntar como pode a Igreja contribuir para a solução dos urgentes problemas sociais e políticos, e responder ao grande desafio da pobreza e da miséria? Os problemas da América Latina e do Caribe, assim como do mundo de hoje, são múltiplos e complexos, e não podem ser enfrentados com programas gerais. Contudo, a questão fundamenta! sobre o modo como a Igreja, iluminada pela fé em Cristo, deva reagir diante desses desafios nos concerne a todos. Neste contexto é inevitável falar do problema das estruturas, sobretudo, das que criam injustiça. Na verdade, as estruturas justas são uma condição sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade. Mas como nascem? Como funcionam?

Tanto o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a criação de estruturas justas e afirmaram que estas, uma vez estabelecidas, funcionariam por si mesmas; afirmaram que não só não haviam tido a necessidade de uma precedente moralidade individual, mas elas fomentariam a moralidade comum. E esta promessa ideológica se demonstrou que é falsa. Os fatos o colocam de manifesto. O sistema marxista, onde governou, não só deixou uma triste herança de destruições económicas e eco lógicas, mas também uma dolorosa destruição do espírito. E o mesmo vemos também no Ocidente, onde cresce constantemente a distância entre pobres e ricos e se produz uma inquietante degradação da dignidade pessoal com a droga, o álcool e as sutis miragens de felicidade.

As estruturas justas são, como disse, uma condição indispensável para uma sociedade justa, mas não nascem nem funcionam sem um consenso moral da sociedade sobre os valores fundamentais e sobre a necessidade de viver estes valores com as necessárias renúncias, inclusive o interesse pessoal.

Onde Deus está ausente - o Deus do rosto humano de Jesus Cristo - estes valores não se mostram com toda sue força, nem se produz um consenso sobre eles. Não quero dizer que os não crentes não possam viver uma moralidade elevada e exemplar; digo somente que uma sociedade na qual Deus está ausente não encontra o consenso necessário sobre os valores morais e a força para viver segundo a pauta destes valores, mesmo contra os próprios interesses.

Por outro lado, as estruturas justas hão de ser buscadas e elaboradas à luz dos valores fundamentais, com todo c empenho áa razão política, económica e social. São uma questão da reta ratio e não provêm de ideologias nem de promessas. Certamente existe um tesouro de experiências políticas e de conhecimentos sobre os problemas sociais e económicos, que evidenciam elementos fundamentais de um etrado justo e os caminhos que se têm de evitar. Mas em situações culturais e políticas diversas, e em transformação progressiva das tecnologias e da realidade histórica mundial, há que se buscar, de maneira racional, as respostas adequadas e deve se criar - com os compromissos indispensáveis - o consenso sobre as estruturas que hão de se estabelecer.

Este trabalho político não é competência imediata da Igreja. O respeito de uma sã laicidade - ate mesmo com a pluralidade das posições políticas - é essencial na tradição cristã autêntica. Se a Igreja começasse a se transformar diretamente em sujeito político, não faria mais pêlos pobres e pela justiça, mas faria menos, porque perderia sua independência e sua autoridade moral, identificando-se com uma única via política e com posições parciais opináveis. A Igreja é advogada da justiça e dos pobres, precisamente ao não se identificar com os políticos nem com os interesses de partido.

Só sendo independente pode ensinar os grandes critérios e os valores irrevogáveis, orientar as consciências e oferecer uma opção de vida que vai além do âmbito político. Formar as consciências, ser advogada da justiça e da verdade, educar nas virtudes individuais e políticas, é a vocação fundamental da Igreja neste setor. E os leigos católicos devem ser conscientes de sua responsabilidade na vida pública; devem estar presentes na formação dos consensos necessários e na oposição contra as injustiças.
 



Pág. 121 e 122

A família


A família, "património da humanidade", constitui um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos. Ela foi e é escola da fé, palestra de valores humanos e cívicos, lar em que a vida humana nasce e é acolhida generosa e responsavelmente. No entanto, na atualidade sofre situações provocadas pelo secularismo e pelo relativismo ético, pêlos diversos fluxos migratórios internos e externos, pela pobreza, pela instabilidade social e por legislações civis contrárias ao matrimónio que, ao favorecer os anticoncepcionais e o aborto, ameaçam o futuro dos povos. Em algumas famílias da América Latina, persiste ainda, infelizmente, uma mentalidade machista, ignorando a novidade do cristianismo que reconhece e proclama a igual dignidade e responsabilidade da mulher com relação ao homem.

A família é insubstituível para a serenidade pessoal e para a educação dos filhos. As mães que querem dedicar-se plenamente à educação de seus filhos e ao serviço da família devem ter as condições necessárias para poder fazê-lo, e para isso têm direito de contar com o apoio do Estado. De fato, o papel da mãe é fundamental para o futuro da sociedade.

O pai, por sua parte, tem o dever de ser verdadeiramente pai, que exerce sua indispensável responsabilidade e colaboração na educação de seus filhos. Os filhos, para seu crescimento integral, têm o direito de poder contar com o pai e com a mãe, para que cuidem deles e os acompanhem rumo à plenitude de sua vida. É necessária, pois, uma pastoral familiar imensa e vigorosa. É indispensável também promover políticas familiares autênticas que respondam aos direitos da família como sujeito social imprescindível. A família faz parte do bem dos povos e da humanidade inteira.
 



Pág. 126 e 127

Os jovens e a pastoral vocacional


Na América Latina a maioria da população está forma­da por jovens. A este respeito, devemos recordar-lhes que sua vocação é ser amigos de Cristo, discípulos, sentinelas do amanha, como costumava dizer o meu predecessor João Paulo II. Os jovens não temem o sacrifício, mas, sim, uma vida sem sentido. São sensíveis à chamada de Cristo que os convida a segui-lo. Podem responder a essa chamada como sacerdotes, como consagrados e consagradas, ou ainda como pais e mães de família, dedicados totalmente a servir aos seus irmãos com todo o seu tempo, sua capacidade de entrega e com a vida inteira. Os jovens encaram a existência como uma constante descoberta, não se limitando às modas e tendências comuns, indo mais alem com uma curiosidade radical acerca do sentido da vida, e de Deus Pai-Criador e Deus-Filho Redentor no seio da família humana. Eles devem-se comprometer com uma constante renovação do mundo à luz de Deus. Mais ainda: cabe-lhes a tarefa de oporem-se às fáceis ilusões da felicidade imediata e dos paraísos enganosos da droga, do prazer, do álcool, junto com todas as formas de violência.                         
 

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