"Nova História Crítica - 8ª Série"

O Globo, 20/set07 Câmara vai cobrar esclarecimentos ao MEC

Deputados pedem audiência pública sobre o livro 'Nova História Crítica', de Mário Schmidt

BRASÍLIA. A Comissão de Educação da Câmara vai pedir esclarecimentos ao Ministério da Educação (MEC) sobre a distribuição, para escolas públicas, do livro "Nova História Crítica - 8a série", de Mário Schmidt (Editora Nova Geração). A obra foi reprovada este ano por falhas de conteúdo e deixará de ser comprada em 2008.
Os deputados Otávio Leite (PSDB-RJ) e Lobbe Neto (PSDB-SP) apresentaram requerimentos ontem solicitando audiência pública sobre o tema. Eles querem a presença de um representante do MEC para dar explicações.
- É a expressão mais pura do dogmatismo incompatível com a práxis educacional democrática - disse Leite.
O presidente da comissão, deputado Gastão Vieira (PMDB-MA), criticou a Secretaria de Educação Básica, que coordena a avaliação dos livros:
- A secretaria foi aparelhada. Vamos chamar a pessoa que é responsável pelo programa para nos explicar como o MEC distribui um conteúdo daqueles.
Em nota, a editora Nova Geração criticou o artigo do jornalista Ali Kamel publicado anteontem no GLOBO, com transcrições de trechos do livro, como o que descreve o líder comunista e fundador da República Popular da China, Mão Tsé-tung, de "grande estadista". Segundo a nota, o artigo selecionou trechos isolados, sem citar críticas feitas ao regime comunista chinês e soviético.


Ministro da Educação é estudioso do marxismo
Haddad defende socialismo em livros

SÃO PAULO. Ministro da Educação do governo Lula desde julho de 2005, o professor Fernando Haddad é um estudioso do marxismo. Graduado em direito pela Universidade de São Paulo (USP), fez mestrado em economia pela Facufdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP com a dissertação "O caráter socioeconômico do sistema soviético", em 1990. Para escrevê-la, foi aluno visitante da McGid University, no Canadá, em 1989. O doutorado em filosofia foi obtido na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com a tese "De Marx a Habermas - O materialismo histórico e seu paradigma adequado", em 1996.
A dissertação foi motivada, segundo Haddad, pêlos acontecimentos do bloco comunista no começo dos anos 90, que "recolocaram a questão de qual seria (ou teria sido) o caráter social do sistema soviético". Haddad afirma que decidiu apresentar "interpretação alternativa do fenómeno soviético". "Não só pode-se considerar progressista o sistema soviético em relação ao estágio precedente, qual seja, o modo asiático de produção desfigurado pelo imperialismo, como deve-se considerar progressista o modo capitalista em relação ao sistema soviético", resume a dissertação.
Professor licenciado do Departamento de Ciência Política da USP, onde ensina teoria política, Haddad publicou quatro livros: "O sistema soviético - Relato de uma polémica" (Scritta Editora!), em 1992; "Desorganizando o consenso" (Vozes), em 1998; "Em defesa do socialismo" (Vozes), em 1998; e "Sindicalismo, cooperativismo e socialismo" (Fundação Perseu Abramo), em 2003.
No volume "Em defesa do socialismo - Por ocasião dos 150 anos do Manifesto", Haddad propõe, segundo o professor Paul Singer, que assina a orelha do livro, "um diagnóstico do capitalismo atua), que chama de 'superindustrial'; desenvolve nova teoria das classes (...), distinguindo a classe proprietária e três não-proprietárias; analisa i nter-relacionamentos das classes para propor uma estratégia de luta pelo socialismo que possa unir as classes nâo-proprietárias".
"O projeto socialista, nos dias que correm, aparece como algo mesquinho, fruto do ressentimento, que pretende tirar a liberdade dos mais capazes. Um exame mais atento da sociedade capitalista revela, entretanto, uma realidade oposta da apregoada", afirma Haddad na página 38 do livro, que está esgotado.
Ter escrito em defesa do socialismo não impediu o ministro de ter sido analista do Unibanco, atividade listada no seu currículo. Ele foi consultor da Fundação Instituto de Pesquisas Económicas (Fipe) e chefe de gabinete da Secretaria de Finanças e Desenvolvimento Económico da Prefeitura de São Paulo. Antes de assumir o Ministério da Educação, era secretário-executivo da pasta. De perfil académico, Haddad é visto no PT, ao qual é filiado, como "de esquerda demais nas ideias, tucano demais nas ações".

POLEMICA NA EDUCAÇÃO: Especialistas afirmam que subjetividade  não  pode ser confundida  com panfletagem
'Livro didático não é catequese', diz historiadora Maiá Menezes

RIO e SÃO PAULO. A metodologia de ensino, aprendida nas faculdades de História, deve ser usada como recurso para evitar o risco de transformar livros didáticos em tratados políticos. Na avaliação de historiadores ouvidos pelo GLOBO, a subjetividade, esperada em qualquer escritor, não pode ser confundida com panfletagem. Ou como recurso de convencimento. Sem citar diretamente o autor de "Nova História Crítica", a historiadora Marly Silva da Moita fez ressalvas ao estilo:
- Não existe neutralidade. Mas o ideal é colocar a formação profissional a seu favor. E não se transformar em um general para conquistar soldados. Livro didático não é catequese - afirma a historiadora Marly, do CPdoc da Fundação Getúlio Vargas e autora do livro "História em curso: o Brasil e suas relações com o mundo ocidental", recomendado pelo Ministério da Educação para os alunos do ensino médio.

A professora sustenta ainda que subjetividade não pode se confundir com panfletagem.

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