Comissão da Verdade e Reconciliação

*Maria Joseita Silva Brilhante Ustra

Reconciliação? Como, se o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o ministro da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, lutam pela punição dos que lutaram contra os militantes da luta armada?

Como vinha sendo anunciado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou ontem, 21/12 , o Programa Nacional de Direitos Humanos, que, entre outros assuntos referentes ao tema, por sugestão de Paulo Vannucchi, propõe a criação, por lei, da Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação, para examinar os “excessos” do regime militar no combate às guerrilhas urbana e rural.

A Comissão Nacional da Verdade, segundo o anunciado pelo ministro da Secretaria dos Direitos Humanos, terá a finalidade de saciar “a necessidade da população conhecer a História do país e as violações dos direitos humanos”, além, é claro, de fazer as devidas reparações, melhor dizendo indenizações.

Pelo que os jornais noticiaram durante a cerimônia,  houve lamentos e choro por parte de militantes de esquerda, do presidente Luiz Inácio da Silva, do vice José Alencar e da ministra Dilma Rousseff. Vídeos e, provavelmente,  alguns depoimentos devem ter aumentado os sofrimentos por que passaram “os  estudantes que lutavam pela liberdade e pela derrubada da ditadura militar”. Para os que não conhecem a História,  os que não viveram aquela época, fica a idéia de que jovens inocentes, desarmados,  cheios de amor pela liberdade e pela pátria, ordeiros, morreram , quando  seus lares e suas escolas eram invadidos por truculentos gorilas armados até os dentes. Essa é a imagem que vem sendo repetida há anos. Gerações e gerações estão sendo formadas nas escolas, já no 1º grau, sem chance de ouvir o outro lado da história.

Como esse governo é composto por vários militantes da luta armada, que desde antes de 1950 já se infiltravam nos quartéis, nas igrejas, no meio estudantil  para tentar a tomada do poder, afim de  implantar uma ditadura leninista-marxista, aqueles que foram mortos por eles ou que ficaram com sequelas não são nem lembrados. Os 120 mortos por muitos que hoje são pranteados, não existem.

Não interessa que tenham sido humildes trabalhadores a caminho de seu trabalho, donas de casa que iam às compras, domésticas indo para  labuta, estudantes que iam ao colégio, vigias de bancos, militares estrangeiros  que faziam cursos ou visitavam  o Brasil, sentinelas de quartéis, agentes de polícia , comerciantes, alguns sem saber o que acontecia... Esses,  para eles em sua sanha revanchista jamais existiram, nem têm o direito de ser pranteados. Imagino os parentes desses mortos; imagino os que ficaram vivos, mas mutilados, como o jovem Orlando Lovéchio, que perdeu uma perna  e a carreira de piloto na explosão de uma bomba no Consulado Americano.

Imagino Sebastião Thomaz de Aquino,  o “Paraíba”, jogador de futebol do Santa Cruz , que também perdeu uma perna  na explosão de outra  bomba no Aeroporto de Guararapes, em Recife. Imagino centenas de outros mutilados vendo essas notícias nos jornais e nas tvs... Muitas lágrimas devem ter rolado...

Resta saber quais serão os convocados para os depoimentos perante a Comissão a ser criada.

Segundo “O Globo”, o assunto causou polêmica por se tratar de uma revisão unilateral. Uma revisão de apenas um lado da História. Será que a Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação irá dar o exemplo, chamando em primeiro lugar para esclarecer pontos obscuros nesse caso alguns membros do próprio grupo que formará a Comissão?

Será que membros e ex-membros do governo serão chamados para depor? Carlos Minc, Franklin Martins, Dilma Rousseff, Paulo Vannuchi, Juca Ferreira, Fernando Pimentel, José Dirceu, José Genoíno, Aloysio Nunes Ferreira  e outros têm muito a esclarecer:
-a verdadeira motivação para a luta armada,
-o ano das primeiras remessas de militantes para treinamento de guerrilha no exterior;
- as organizações existentes antes de 1964;
-os líderes dos movimentos infiltrados entre militares, estudantes e operários, etc
Será que o revanchismo dos que foram derrotados na década de 70, e que tiveram que esperar até os dias de hoje para, à maneira de Gramsci, tomarem o poder e se vingarem da demora para alcançar seus objetivos, cegará a justiça e mudará a Lei da Anistia? Será que os juizes estão também tão impregnados dessa ideologia ultrapassada que mudarão e farão retroceder uma Lei criada justamente para a reconciliação nacional?

Nessa mesma cerimônia, foi feita, também, o lançamento do Projeto que deverá seguir para votação no  Congresso e a entrega de 16 prêmios para pessoas “que lutaram pela liberdade e pela defesa dos direitos humanos”. Entre elas, Inês Etienne Romeu .

A ministra da Casa Civil, coordenadora, juntamente com o ministro das Comunicações, Franklin Martins, do Projeto Memórias Reveladas - que, aliás não revela nada dos crimes praticados pelos militantes da luta armada - participou da entrega do Prêmio Direitos Humanos / 2009, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Dilma se emocionou ao falar da época do combate à ditadura militar, mas, óbvio,  esqueceu de dizer que não lutava por democracia. Esqueceu de dizer que a sua primeira organização, a POLOP (Política Operária), uma mistura de dissidentes trotskistas e marxistas independentes, desde 1961 lutava para implantar uma ditadura, a marxista-leninista.

Os jornalistas anunciaram que Inês Etienne Romeu, premiada na categoria “Direito à Me-mória e à Ve-rdade”, era uma amiga da ministra. Pode ser que tenham sido amigas, o cer-to, certo mes-mo, é que  foram companheiras de luta armada nas mesmas organizações - POLOP (Política Operária) e VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Em seu discurso, Dilma afirmou que Inês foi presa em São Paulo em 1971, trans-ferida para o Rio de Janeiro e submetida à violência em cárcere privado. Sobre a companheira de luta armada, com a voz embargada, disse que falaria devagar, porque se emocionaria e disse:.

“Ela é o testemunho da coragem e da dignidade de uma geração. Quem viveu aquele tempo em que a palavra democracia era esquecida, quando não perversamente deturpada, compreende o sentido do resgate e da conservação da memória do que ocorreu no país naquele período”, disse a ministra.” Sob aplausos e com dificuldade de prosseguir seu discurso de quase 10 minutos, Dilma lembrou que cruzou seu destino com o de Inês em uma esquina de Belo Horizonte.
“Inês, o Brasil te agradece com este prêmio. Obrigada por tudo”, afirmou a candidata de Lula, para quem o país passa por uma importante transformação social, política, econômica e democrática.

Essa última frase já faz parte da propaganda política.

Lula também se pronunciou. Para ele, a luta dos militantes da luta armada “valeu a pena”.
- “Valeu apena cada gesto que vocês fizeram, cada apertão que vocês tiveram, porque aprendemos. E, na medida que a gente aprende, garante que não haverá mais retrocesso. E   isso devemos a vocês, que lutaram antes de nós”, disse, dirigindo-se a militantes da esquerda presentes à cerimônia.

Valeu a pena para Lula, porque ele, durante sua vida  só perdeu um dedo, operando um torno, provavelmente de forma inadequada . Não perdeu  pernas nem a  própria vida... Se ele não sabe, existem outras maneiras menos traumáticas de se aprender...

Aguardem a biografia de Inês Etienne Romeu  no próximo capítulo do Projeto Orvil sobre a VPR, brevemente neste site. Estamos pesquisando...

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