O Bordel das Normalistas

* A. C. Portinari Greggio

No artigo anterior, dizíamos: Está na hora de examinar o conceito de “democracia” defendido pelos políticos. O leitor se surpreenderá ao verificar que o tabu da “democracia”, que pensam ser oriundo da Grécia clássica, na verdade é uma enganação inventada no século 19, junto com a ideologia comunista. Vamos tratar desse assunto nos próximos números do Inconfidência.
Este, portanto, é o primeiro duma série sobre a democracia, a grande vaca sagrada dos políticos, dos intelectuais e da mídia.

É o Brasil uma democracia? Os que estão no poder, é claro, dizem que sim. Outros não con-cordam, e afirmam que falta muito para chegar à “verdadeira” democracia. Os descontentes denunciam: somos uma “falsa” democracia. Os pessimistas dizem que o povo está “despre-parado” para a democracia, a qual deveria ser deixada para depois. Não, respondem outros: tem de ser aqui e agora, porque é vivendo a democracia que um povo aprende a praticá-la. Enfim, parece que só existe acordo sobre um ponto: que a democracia é ideal a ser atingido mediante educação, saúde, desenvolvimento, etc.

Se a democracia nunca está aqui, mas é sempre ideal a ser atingido, coisa a ser aperfeiçoada, maravilha que todos conhecem, mas ninguém viu, então é provável que não passe de utopia. E utopia, meus amigos, significa “lugar nenhum”. Um local inexistente, mas que todos conhecem e desejam, deve ser algo como a história do bordel das normalistas, que antigamente corria nas rodas boêmias de Belo Horizonte. Normalistas, convém esclarecer às novas gerações, eram as jovens colegiais daquela época. E colegiais, em Minas Gerais, eram donzelas severamente vigiadas pelas famílias. Lindas, preciosas e inacessíveis, as normalistas eram o sonho de muita gente. Mais ou menos como a democracia. Foi então que surgiu a história de que existia, sim senhor, um bordel escondido de normalistas, mantido por certa madame não identificada, no qual cavalheiros de fino trato e muito dinheiro podiam desfrutar, discreta e secretissimamente, daquelas maravilhosas ninfas. A história virou tema de rodas de botequim. Sempre havia um que conhecia alguém que já estivera no tal bordel. Só que ninguém tinha o endereço. E assim rolaram, anos a fio, cascatas de chope e de conversa fiada. Se existia, ninguém sabia; mas que era ótimo assunto para animar a mesa, isso era.

Há tempo recebi a visita dum amigo, militante de partido político, o qual ensaiou, no meio da conversa, convencer-me das maravilhas da nossa democracia. Tentei explicar-lhe que a democracia não é nossa, é deles, e não passa de fraude; que num país como o Brasil, democracia é erro conceitual tão absurdo quanto a roda quadrada. Surpreso, atalhou: “Acho que a sua definição de democracia não é igual à minha. Diga-me o que é, no seu entender, democracia.”

Respondi que, antes de dar a “minha” definição – que não é minha, é de gente melhor que eu – queria saber qual era a dele. “Simples”, disse, e passou a citar a lista: soberania popular, governo constitucional, separação de poderes, império da Lei, eleições livres, representação, direitos humanos, liberdade de expressão, etc. Pedi um exemplo de democracia, não incompleta e em obras, como a brasileira, mas em pleno funcionamento. “Bem, democracia perfeita não há nenhuma, mas há países que se podem considerar democráticos…” Interrompi: “Pense nos Estados Unidos. Os Estados Unidos serviram de modelo para centenas de constituições republicanas, especialmente na América Latina. Embora tenha imperfeições, acho que os Estados Unidos são bom exemplo de democracia. Pelo menos é esse o consenso geral. Concorda?”
“Concordo”, respondeu o amigo.

“Muito bem. Nesse caso, acho que você também concorda que a democracia americana não saiu do nada nem surgiu por acaso.”

Sim, assentiu ele. Realmente a Revolução Americana tinha sido iniciada e conduzida segundo as idéias dos Pais Fundadores, os Foun-ding Fathers, um grupo de homens que reuniam em si as mais nobres qualidades, admirados até mesmo pela dupla Marx & Engels. Homens como George Washington, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton, James Madison, Benjamin Franklin, Pelatiah Webster, Charles Pinckney, John Adams, John Jay, Thomas Pai-ne… a lista seria longa.

Fixado esse ponto, de que a Revolução Americana foi projeto consciente, de gente que sabia o que queria, convidei-o ao meu escritório e tirei da estante uma parte da coleção intitulada “The Library of America”, publicada pelo National Endowment for the Humanities, cuacaf grossos volumes, cuidadosamente impressos e editados, incluem as obras completas dos Pais Fundadores, as quais, em milhares de páginas em papel bíblia, reúnem praticamente todos os seus escritos.

“Se é verdade que os Estados Unidos são uma democracia, e se é fato que os Fundadores sabiam disso e conscientemente construíam uma democracia, então, com certeza, deviam discutir esse assunto. Por isso, você encontrará a palavra ‘democracia’ mencionada muitas vezes nas suas obras, não é?”

Bem, o resto da história fica para o próximo Inconfidência. Para poupar o leitor, aqui vai o resumo: em toda a volumosa obra dos fundadores da “democracia” americana, o termo “democracia” é pouquíssimo usado e, nas raras vezes que o mencionam, é sempre em sentido negativo, como mal a ser evitado, atraso de vida, retrocesso, sinônimo de tirania e de desordem. Embora os Estados Unidos fossem o modelo mundial de liberdade, os americanos nunca pensaram em viver numa democracia. Tudo indica que, para eles, liberdade e democracia não combinam.

Donde vem, então, o ideal da democracia? Como vê, caro leitor, nossa tarefa será mais difícil do que descobrir o endereço do bordel das normalistas.

* Economista, ex-aluno da Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo

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