A vitória final

*Hamilton Bonat
Ao me despedir, pedi ao Coronel
Gurgel uma cópia da sua alo-cução. Precisava escrever sobre a emoção que acabara de sentir, sem, no entanto, correr o risco de falsear dados factuais sobre a vida do General Ítalo Conti.
A cerimônia que eu presenciara no pátio do 5º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropul-sado poderia ter sido apenas uma solenidade com roteiro previsível e formato rigidamente definido no cerimonial castrense. Mas não resumiu-se apenas a isso. Um tempero extra acabaria por transformá-la em um acontecimento único e singular, num momento especial, que fundiu presente, passado e futuro.
De um lado, os nonagenários pracinhas recordavam seu glorioso passado. Junto a eles, os familiares do homenageado, cujo semblante não conseguia dissimular o difuso sentimento que mesclava alegria, tristeza, saudade e gratidão, uma sensação de vazio, um sentimento de perda, uma tentadora vontade de que ele estivesse ali.
Do outro lado, o presente: os jovens soldados que, em forma, rendiam preito ao Major Comandante que, em 1949, transferira o Grupo da praça Oswaldo Cruz para o longínquo Boqueirão, bairro de Cu-ritiba onde só se chegava a cavalo.
Os 97 anos de Ítalo Conti foram vividos intensamente em vários recantos do Brasil. Como Capitão, esteve no teatro de ope-rações italiano, integrando a Força Expedicionária Brasileira. Chegou a general, foi eleito deputado federal por quatro legislaturas, batalhou pela construção da Casa do Expedicionário, foi cofunda-dor do Círculo Militar, secretário de Estado e, já octoge-nário, incansável administrador regional da prefeitura do bairro do Portão, onde era o primeiro a chegar e o último a sair. Sua conversa era agradável, atual, cativante e envol-vente, de um verdadeiro “general boa-praça”.
Naquela manhã, o velho comandante estava retornando. Suas cinzas, como era sua vontade, passariam a morar eternamente no quartel. Estavam postos os ingredientes para a emoção tomar conta de todos. Porém, haveria um tempero a mais: a canção do expedicionário, entoada com entusiasmo pela tropa. Se existe algo de arrepiar, ele atende pelo nome de canção do expedicionário. A música de Spartaco Rossi forma um par perfeito com a brilhante letra de Guilherme de Almeida. Almeida, num momento de genialidade, conseguiu abranger todas as regiões brasileiras, pois, de todas, havia soldados na FEB. Ela começa com a pergunta: “Você sabe de onde eu venho?”, para, em seguida, respondê-la com uma abrangente descrição do Brasil preponderantemente rural da década de 1940.
“Venho das selvas, dos cafezais, da boa terra do coco, das praias sedosas, das montanhas alterosas, dos pampas, do seringal... Venho da casa branca da serra, do luar do sertão; venho da minha Maria, cujo nome principia na palma da minha mão... Da Senhora Aparecida e do Senhor do Bonfim!”.
Seu refrão encorajava os pracinhas e acenava-lhes com a esperança do regresso para os braços da família distante: “Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá; sem que leve por divisa esse ‘V’ que simboliza a vitória que virá. Nossa vitória final ... a glória do meu Brasil!”.
O Pracinha agora está de volta. Retorna ao seu velho quartel, como um exemplo aos soldados de amanhã. Quando algum deles passar pelo pequeno monumento e, curioso, perguntar quem foi Ítalo Conti, alguém lhe dirá: “Foi um herói da paz, que atravessou mares e oceanos para lutar pela liberdade. Mas não apenas na Itália. Fez isso por onde passou, durante a sua longa e profícua existência”.
Ao me despedir, pedi ao Coronel Gurgel uma cópia da sua alocução. Precisava escrever sobre a emoção que acabara de sentir, sem, no entanto, correr o risco de falsear dados factuais sobre a vida do General Ítalo Conti.

A cerimônia que eu presenciara no pátio do 5º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado poderia ter sido apenas uma solenidade com roteiro previsível e formato rigidamente definido no cerimonial castrense. Mas não resumiu-se apenas a isso. Um tempero extra acabaria por transformá-la em um acontecimento único e singular, num momento especial, que fundiu presente, passado e futuro.
De um lado, os nonagenários pracinhas recordavam seu glorioso passado. Junto a eles, os familiares do homenageado, cujo semblante não conseguia dissimular o difuso sentimento que mesclava alegria, tristeza, saudade e gratidão, uma sensação de vazio, um sentimento de perda, uma tentadora vontade de que ele estivesse ali. 
Do outro lado, o presente: os jovens soldados que, em forma, rendiam preito ao Major Comandante que, em 1949, transferira o Grupo da praça Oswaldo Cruz para o longínquo Boqueirão, bairro de Curitiba onde só se chegava a cavalo. 
Os 97 anos de Ítalo Conti foram vividos intensamente em vários recantos do Brasil. Como Capitão, esteve no teatro de operações italiano, integrando a Força Expedicionária Brasileira. Chegou a general, foi eleito deputado federal por quatro legislaturas, batalhou pela construção da Casa do Expedicionário, foi cofunda-dor do Círculo Militar, secretário de Estado e, já octogenário, incansável administrador regional da prefeitura do bairro do Portão, onde era o primeiro a chegar e o último a sair. Sua conversa era agradável, atual, cativante e envol-vente, de um verdadeiro “general boa-praça”.
Naquela manhã, o velho comandante estava retornando. Suas cinzas, como era sua vontade, passariam a morar eternamente no quartel. Estavam postos os ingredientes para a emoção tomar conta de todos. Porém, haveria um tempero a mais: a canção do expedicionário, entoada com entusiasmo pela tropa. Se existe algo de arrepiar, ele atende pelo nome de canção do expedicionário. A música de Spartaco Rossi forma um par perfeito com a brilhante letra de Guilherme de Almeida. Almeida, num momento de genialidade, conseguiu abranger todas as regiões brasileiras, pois, de todas, havia soldados na FEB. Ela começa com a pergunta: “Você sabe de onde eu venho?”, para, em seguida, respondê-la com uma abrangente descrição do Brasil preponderantemente rural da década de 1940.
“Venho das selvas, dos cafezais, da boa terra do coco, das praias sedosas, das montanhas alterosas, dos pampas, do seringal... Venho da casa branca da serra, do luar do sertão; venho da minha Maria, cujo nome principia na palma da minha mão... Da Senhora Aparecida e do Senhor do Bonfim!”.
Seu refrão encorajava os pracinhas e acenava-lhes com a esperança do regresso para os braços da família distante: “Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá; sem que leve por divisa esse ‘V’ que simboliza a vitória que virá. Nossa vitória final ... a glória do meu Brasil!”.

O Pracinha agora está de volta. Retorna ao seu velho quartel, como um exemplo aos soldados de amanhã. Quando algum deles passar pelo pequeno monumento e, curioso, perguntar quem foi Ítalo Conti, alguém lhe dirá:
“Foi um herói da paz, que atravessou mares e oceanos para lutar pela liberdade. Mas não apenas na Itália. Fez isso por onde passou, durante a sua longa e profícua existência”.
* General de Brigada - http://www.bonat.com.br 
 
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