Os Sem-Pátria

*A. C. Portinari Greggio

Este é o oitavo artigo duma série sobre o papel das universidades e dos intelectuais na subversão política. No anterior, descrevemos como os intelectuais militantes que haviam feito a revolução comunista na Rússia foram brutalmente afastados e liquidados por Stalin, que entregou o poder aos tecnocratas. A revolução tecnocrática dentro da revolução socialista foi duro golpe nas ilusões dos militantes esquerdistas nos demais países, particularmente os comunistas judeus, chocados pelo exílio e o assassinato de Trótsqui e pelo disfarçado anti-semitismo dos novos dirigentes soviéticos.

Mostramos que a desilusão dos intelectuais suscitou duas reações principais, o gramscismo e a Escola de Frankfurt. Essas facções de militantes, continuamente geradas e multiplicadas nas universidades – que são, como vimos, a sua origem, fonte de formação e base operacional – , aproveitaram a distração da Guerra Fria, enquanto os governos ocidentais enfrentavam a agressão do bloco comunista, para solertemente assumir o controle da mídia, da educação e das artes – cinema, literatura, teatro, tudo, enfim, em seus países. Com isso, passaram a formar e a condicionar a opinião e a atitude política da população. Por processo natural de disseminação, povoaram os quadros dos governos, da ONU e da sua constelação de entidades internacionais, bem assim das milionárias fundações do tipo Ford, Rockefeller, Oxfam, Conselho Mundial de Igrejas, etc., etc., onde passaram a dispor de bilhões de dólares para financiar suas atividades em todo o mundo.

Em conluio com a ONU, criaram as notórias ongues, que além de atuarem como escalões de fogo e governos paralelos, são também cabides de empregos destinados a absorver as levas cada vez mais numerosas de militantes paridas pelas grandes universidades.

Por estranho que pareça, a queda do Muro de Berlim, que todos pensavam ter sido o “fim do comunismo”, foi o evento que lhes permitiu tomar o poder. A Guerra Fria era um estado de mobilização militar, no qual os neo-comunas tinham de viver encolhidos, apesar de já estarem em todos os lugares-chaves. Quando o Muro caiu, debandou-se a mobilização anti-comunista. E os enrustidos saíram dos armários e tomaram conta de tudo.

Já não se apresentavam como comunistas, e de fato haviam repudiado até mesmo os fundamentos filosóficos do marxismo. Sua nova idelogia era o “pós-modernismo”.

Diferentes de seus precursores comunistas, os “pós-modernos” não tencionam liquidar o capitalismo por via revolucionária. Não, porque aprenderam a lição da Rússia: destruído o capitalismo, terão de assumir a economia e o governo, tarefa que exige qualidades que lhes faltam. Em vez disso, os “pós-modernos” preferem assumir e exigir a utopia, abandonando a linha científica do marxismo.

O marxismo tinha desprezo por utopias. Acreditando conhecer as leis da História, previa a vitória do socialismo como algo inevitável, cientificamente predeterminado. Os “pós-modernos”, ao contrário, não se envergonham de sonhar. Não tentam provar nada cientificamente (afinal, na sua confusa ideologia, nada se prova e a ciência não existe). Para eles, a utopia virá porque a querem, e querer, na doutrina “pós-moderna”, é poder, já que tudo o que acontece deriva da vontade das pessoas.

Quem ouve essa conversa chega até a acreditar que os “pós-modernos” têm a sublime loucura dos santos ou profetas. Mas seu utopismo não tem nada de sublime. Não passa de tática de extorsão. Se reivindicassem o possível, correriam o risco de ser atendidos, e suas ongues e movimentos deixariam de ser necessárias. Logo, tratam de exigir o impossível de modo que sempre tenham pretexto para encostar suas vítimas à parede. A “utopia” não é senão uma técnica para garantir poder, vantagens e empregos.

Não podendo nem querendo mudar o sistema econômico, esforçam-se por controlá-lo e explorá-lo à sua maneira.

Primeiro, consolidam suas bases nas universidades. Não é difícil porque são seus arraiais cativos. É natural que ali sejam aceitas sem resistência as idéias que convêm a seus interesses de classe.

Assim que se estabelece algum consenso, ainda que minoritário, o resto é simples: basta patrulhar os submissos e silenciar os dissidentes para impor a unanimidade.

Influente e ativa, sem sair de suas seguras posições, a máfia intelectual consegue extorquir e intimidar seus adversários, controlar o governo e impedir a manifestação de opinião divergente. É surpreendente como uma minoria de enganadores, incapaz de se impor pela capacidade (que não tem) ou pela força (cujo uso abomina), mas extremamente ruidosa e vociferante, consegue exercer um poder paralelo, efetivo e irresponsável (no sentido de que mandam mas não arcam com o ônus de administrar).

Toda a sua ação política é voltada contra o Poder Nacional. Para debilitá-lo, procuram dissolver os princípios da autoridade e o da nacionalidade. Sob o pretexto de defender direitos humanos, paralisam a ação do Estado; com a desculpa de combater preconceitos, fomentam o homossexualismo, a marginalidade e a libertinagem; alegando defender a mulher, solapam a estrutura familiar e promovem a bastardia;

Impõem a vulgaridade e a burrice em nome da “inclusão” da “cultura popular”; incitam o ódio racial dizendo defender minorias étnicas; rejeitam a identidade nacional e impõem, em seu lugar, a barbárie do “multiculturalismo”; e para “liberar os costumes” incutem na juventude o desprezo aos mais elementares princípios de decência e civilidade.

Surge aos olhos, aqui, uma contradição. Se a máfia “pós-moderna” não quer governar nem deixa que outros governem, é lógico que seu trabalho de destruição do Estado e de todos os valores nacionais só pode levar à anarquia. E, como se viu na queda da União Soviética, o vácuo de poder costuma ser imediatamente preenchido de forma imprevisivel e incontrolável, muitas vezes pelas Forças Armadas ou pela odiada direita. Isso, é claro, não interessa aos pós-modernos. Como fazem, então, para impedir o caos?

É simples: preenchem os vácuos de poder, substituindo cada atribuição que subtraem ao governo nacional por correspondente interferência de órgãos internacionais, que com sua cumplicidade cada vez mais invadem e usurpam os poderes e a soberania dos Estados.

A burocracia da ONU tem forte afinidade com as intelligentsias nacionais – aliás, a ONU foi inventada por elas – e por isso promove e financia a atuação das ongues e coopta funcionários dos governos, ora dando apoio político às suas carreiras, ora empregando-os nos organismos internacionais.

O que pretendem em longo prazo é reduzir o mundo a uma coleção mundial de governos desarmados e impotentes, controlada por intricada rede de burocratas apátridas, de ongueiros e de aspones militantes e governada por uma oligarquia mundial nos moldes da que ora está em gestação na União Européia. Pode ser uma utopia, mas ninguém é proibido de sonhar, especialmente se for pago em dólares para essa função.

Os governos civis latino-americanos – Inácio, Henrique, madame Bachelê, madame Kirchner – consideram organizações como a ONU e a OEA a sua garantia contra o retorno dos militares em caso de crise. Esses políticos trabalham em duas frentes: enfraquecem ao máximo as Forças Armadas, no âmbito interno; e, no externo, cada vez mais confiam a segurança nacional a organizações internacionais.

Não o fazem no interesse de seus países, nem em defesa da democracia. O que querem é assegurar o poder para si, nem que para isso sacrifiquem a independência e a própria identidade histórica de seus povos.

No próximo artigo falaremos mais sobre o “pós-modernismo”, uma das maiores vigarices intelectuais jamais inventadas na História do mundo.

Economista, ex-aluno da Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo

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