A Revolta dos Fefeléches

*A. C. Portinari Greggio

A greve da USP revelou ao público alguns instantâneos da vida dentro daquela instituição, suficientes para mostrar o nível de degradação a que chegaram as universidades públicas brasileiras.

Se o leitor acompanhou a greve pelos jornais e pela tevê – cuja cobertura foi parcial e tendenciosa, já que, como se sabe, muitos jornalistas e comuniqueiros são formados ali mesmo, naquela casa – deve ter reparado que a USP é um laboratório revolucionário no qual os lenininhos, trotsquinhos, maozinhos e castrinhos têm todos os recursos para ensaiar a sua futura Revolução dos Idiotas.

O primeiro ingrediente da revolução, como se sabe, é a classe trabalhadora. Como na USP não há fábricas nem latifúndios que possam fornecer operários e camponeses, improvisou-se um mini-proletariado, dando ao sindicato dos funcionários o nome de Sindicato dos Trabalhadores da USP, ou SINTUSP. É claro que não se trata de operários, nem de longe. São bedéis, porteiros, faxineiros, datilógrafos, burocratas. Mas não interessa: embora a imagem não seja aquela dos cartazes de propaganda soviéticos – o sujeito forte, duro, com um martelo na mão, olhando firme para o horizonte comunista – ninguém pode dizer que não sejam trabalhadores. Vá lá: um tipo peculiar de trabalhadores sem patrão, com emprego garantido, e certamente não explorados pelo capitalismo, pois não geram nenhuma mais-valia na sua folgada rotina.

O leitor atento deve ter notado, nas imagens dos jornais e da tevê, a bizarra figura do presidente desse SINTUSP. Reparou? O cara é tão bolchevique que usa uma fantasia de comissário do povo soviético, modelo 1917. No começo, pensei que era de Trótsqui, mas agora estou convencido de que é de Felix Djerjinski, o psicopata fundador da Tcheka, a precursora do KGB. Pois é: o homem usa a mesma barbicha e o mesmo boné de couro do comunista polonês. Antigamente, gente assim ia parar no Pinel ou no asilo do doutor Franco da Rocha. Hoje, bolchevizam na USP.

Além do mini-operariado in-house, a USP tem também a sua própria comunidade de excluídos. É a única universidade no mundo cujo campus é integrado por uma favela de 60 mil metros quadrados e 8 mil habitantes. Uma favela-modelo, com excelentes índices de doenças contagiosas, bastardia, criminalidade, evasão escolar, narcotráfico e outras qualidades do gênero, capaz de fazer inveja às melhores quebradas do Rio de Janeiro. A favela de São Remo surgiu na década de 1970 e sua expansão foi não apenas tolerada, mas incentivada pelos magníficos reitores, que a consideravam um bom exemplo de inclusão democrática.

Tendo determinado quem são as massas populares na mini-revolução da USP, só falta identificar a vanguarda revolucionária para completar o modelo. Certamente não é a Medicina, nem a Engenharia, nem a Economia e Administração. Essa gente, a turma das exatas, econômicas e biomédicas, tem pouca consciência revolucionária.

É fato notório em todo o mundo que os movimentos revolucionários não são de camponeses nem de operários. Quem conhece a verdadeira história das revoluções, sabe que estas surgem dentro da própria elite, de facções raivosas e frustradas que incitam o povão à revolta. No caso específico da mini-revolução da USP, as facções raivosas e frustradas se concentram na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – a notória FFLCH. No jargão dos alunos, a FFLCH é conhecida como Fefeléche. Isso mesmo: Fefeléche, nome que seria mais adequado a um bloco de frevo no carnaval do Recife.

Se o leitor for chegado à Internet, sugiro que veja um vídeo feito pelos alunos da Politécnica sobre a greve de 2005, instigada, como sempre, pela Fefeléche em associação com o SINTUSP, o sindicado do Djerjinski. O endereço é http://www.youtube.com/watch?v=5Mai4 S36a4g. Se a conexão for lenta, aconselho deixar que o vídeo “carregue” por uns cinco minutos. Vale a pena. Mas não espere flagrar os bolcheviques da Fefeléche em ação. Eles ficam na moita. Quem agita, agride, insulta e provoca são os “trabalhadores” do SINTUSP. O principal alvo do rancor dos fefeléches é a Politécnica, cuacaf alunos geralmente não aderem às greves. Os grevistas estacionam trios elétricos ao lado das salas de aula e, com o som a todo o volume, chamam os alunos de fascistas e reacionários, ameaçam agredir os professores e impedem as aulas. Com a omissão da reitoria e a conivência das autoridades, o campus é uma casa-da-mãe-Joana, sem lei e sem ordem.

Os fatos mostram que a agitação estudantil tem duas fontes. A primeira é a dor-de-cotovelo dos fefeléches contra os alunos de engenharia (e por extensão contra os de exatas, biomédicas, econômicas e outras matérias duras). A segunda é o objetivo político dessas greves, que ninguém consegue entender.

A dor-de-cotovelo é fácil de explicar. Os fefeléches, com possíveis e honrosas exceções, simplesmente constituem o rebotalho dos vestibulares. É duro admitir, mas essa tem sido a regra do jogo no Brasil. Os melhores alunos passam em engenharia, medicina, direito e outros cursos considerados duros. Os que não conseguem, ou nem sequer tentam, têm de conformar-se com coisas mais fáceis, tais como os cursos da Fefeléche e dos institutos e faculdades similares.

E por que razão os cursos da FFLCH são mais fáceis? Não devia ser assim. Na longa história das universidades, as humanidades sempre foram o pináculo do saber. Se o antigo rigor fosse mantido nos dias de hoje, acrescido de tudo o que se acumulou ao longo dos séculos, os cursos de filosofia e de letras seriam os de mais difícil e honroso acesso. Acontece que esses cursos se corromperam – isso, quando já não nasceram corrompidos, como no caso das ciências sociais “engajadas” – devido à ideologização e à politização. Em vez de produzir letrados e humanistas, passaram a proliferar ativistas, ongueiros, propagandistas e sofistas. E como esses processos se retroalimentam, os cursos da Fefeléche viraram centros de reunião de agitadores em campanha, cada vez mais profissionalmente incapazes e emocionalmente frustrados.
A segunda questão é o objetivo dos grevistas. Está na cara: querem aparecer na mídia, credenciar-se e dar a partida nas respectivas carreiras políticas. Pensem bem: se as mais altas autoridades da república começaram a vida como grevistas, agitadores, assaltantes, terroristas, seqüestradores, desertores, traidores, espiões e mercenários, como negar aos jovens a sua vez? Pois esse é o problema da Fefeléche: fora da política, não há futuro para os seus formandos. Ali só se aprende a fazer a revolução. O quebra-galho dos empregos como professores, ou dos sub-empregos nas ongues, nos sindicatos ou na mídia, nada disso resolve. Essas opções são o ópio dos fefeléches, um artifício dos mais velhos, dos que já estão nas bocas do poder e querem sossego, para desviá-los da sua vocação radical.

Quando os estudantes de antigamente lutavam contra o governo, os lados eram bem definidos. As autoridades, decididamente, não eram comunistas. Os estudantes podiam alegar uma causa, e essa causa encontrava oposição. Hoje os fefeléches lutam no vazio: todas as idéias revolucionárias são moeda de curso forçado. Não há nada que possam reivindicar sem que as autoridades concordem. A unanimidade esquerdista tomou conta de tudo, e as únicas possibilidades de oposição ficam fora da universidade, fora da cultura vigente e fora do redundante mundinho ideológico em que a fefeléchia brasileira se fechou.

É esse o maior dilema do nosso Estado democrático de massas: ele é democrático na pior acepção aristotélica do termo. É uma revolução comunista inacabada, que não se pode completar sem arruinar o País e matar a galinha dos ovos de ouro da nomenklatura. O que os fefeléches exigem, irresponsavelmente, é a revolução completa, como na Rússia, na China ou em Cuba.

Só que, antes de radicalizar e bolchevizar, os jovens deviam sentar e estudar um pouco o que aconteceu com as Fefeléches nos países onde a revolução foi até o extremo. Os cursos técnicos das universidades foram separados das áreas humanas e sociais. Estas passaram ao controle do Partido e da polícia política, e praticamente desapareceram. Quanto às exatas, administrativas e biomédicas, foram militarizadas, incentivadas e prestigiadas, dando origem a uma nova classe de tecnocratas que assumiu o controle de tudo. Grande parte dos fefeléches teve de fugir, ou terminou seus dias nos campos de concentração.

Economista, ex-aluno da Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo

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