Stalin acabou com a alegria deles

*A. C. Portinari Greggio

Este é o sétimo artigo duma série sobre o papel das universidades e dos intelectuais na subversão política. No anterior, dissemos que os intelectuais há muito abandonaram a idéia da revolução comunista clássica, devido à sua desilusão com a ditadura do proletariado, que denominam socialismo real. Essa desilusão, que coincidiu com a vitória de Stalin na luta pelo poder na União Soviética após a morte de Lênin, explica algumas mutações ideológicas das décadas seguintes.

Atrás da fachada proletária, quem de fato mandava na revolução russa era um grupo de intelectuais, dos quais muitos, talvez a maioria, eram judeus atraídos para o comunismo por seu ressentimento contra o Czar e uma irresistível vocação messiânica que muito caro lhes tem custado nestes últimos 2 mil anos.

Mas após devastar inutilmente a Rússia, a revolução malogrou e teve de recuar. Em 1921, acossado pela revolta da população, Lênin decretou a Nova Política Econômica, que restabelecia o mercado e aliviava a repressão política. A revolução perdeu o rumo. Os comunistas eram incapazes de administrar o país. E Trotsqui, virtual sucessor de Lênin, teimava em engajar a Rússia numa quixotesca cruzada para levar a revolução ao resto do mundo.

A ascensão de Stalin pode ser entendida como a reação dos militares, administradores e técnicos nacionalistas, contra os intelectuais internacio-nalistas. Defendendo a idéia do “socialismo num só país”, Stalin afastou os trotsquistas e restaurou as bases do nacionalismo russo. Seguro no poder, atacou os camponeses que se recusavam a aderir à coletivização, liquidando, por fome ou deportação, algo entre seis e oito milhões. Em seguida, matou quase toda a antiga cúpula do Partido Comunista, livrando-se dos intratáveis militantes históricos. O expurgo se ramificou pela hierarquia abaixo, e as matanças e deportações se estenderam a outros tantos milhões de coitados.

Terminado o serviço, Stalin editou a “História do Partido Comunista da URSS” (1938), que não era apenas uma História, era um aviso a todos os que ousassem lucubrar política no país. A mensagem implícita era a seguinte: Tudo o que interessa sobre ideologia, política, filosofia e outras matérias polêmicas, está neste livro. Acabou a discussão.

O livro, além de enterrar a rebeldia dos antigos revolucionários, tratou de substituí-los pelo novo herói socialista: o tecnocrata. Após reconhecer o atraso da União Soviética, a História diz: “O obstáculo ao progresso não era tanto a falta de máquinas e ferramentas, mas a atitude errada dos militantes do Partido, seu menosprezo para com a técnica. Os comunistas entendiam que a técnica era assunto menor que podia ser deixado a cargo de ‘especialistas’ burgueses, enquanto eles deviam ocupar-se com coisas ‘mais importantes’, com a direção da ‘economia em geral’. Essa atitude degenerou em enganação, em assinar papéis sem entender o seu significado, em burocracia estéril. (...) No fundo, ela mal disfarçava a preguiça e a acomodação dos comunistas, que preferiam tocar a rotina e viver regaladamente, deixando o trabalho a cargo dos ‘especialistas’”.Mais adiante a História cita Stalin: “Antigamente, dizíamos que a técnica decide tudo. Hoje temos de ir além e afirmar que os técnicos decidem tudo”.

Essa diretriz sancionava uma revolução dentro da Revolução, pois praticamente demitia os quadros políticos e entregava o poder aos técnicos, instaurando assim a tecnocracia na URSS. A virada fez com que a intelectualidade esquerdista fora da União Soviética passasse a olhar com preocupação o seu próprio futuro. Valia a pena fazer a revolução cantando a Internacional para depois entregar o poder aos técnicos e engenheiros e restaurar o nacionalismo?

Essa questão teve duas respostas: o gramscismo e a Escola de Frankfurt. Embora tenham acontecido separadamente, as duas correntes se complementam. A Escola de Frankfurt, dominada por comunistas judeus, forneceu a nova ideologia; e o gramscismo, a estratégia e a tática para a sua disseminação.

Mas a discussão dos intelectuais sobre o seu próprio futuro não corria solta na “sociedade”. Ela se dava dentro e ao redor das universidades. A tremenda influência dessas instituições nos destinos do Ocidente, inclusive da América Latina, que talvez seja o fenômeno mais decisivo da História moderna, é subestimada pelos historiadores.

Para entender como atua essa influência, é preciso considerar a divisão política das universidades em duas áreas antagônicas: as técnicas, representadas principalmente pelos engenheiros, economistas e contadores, e as humanas e sociais, nas quais se conta a maioria dos militantes de esquerda. Os engenheiros têm afinidade natural com os militares, a burocracia governamental e os empresários. São meritocráticos, autoritários, disciplinadores, têm tendências positi-vistas e apostam na economia. Os humanistas são o contrário de tudo isso e apostam tudo na política.

Ora, as idéias originárias dos marxistas coincidiam em tudo com as dos engenheiros. Vejam: a revolução deveria acontecer por causas econômicas, e o motor da economia era a tecnologia. A revolução viria quando o capitalismo perdesse a eficiência devido à incapacidade de administrar o seu próprio desenvolvimento tecnológico. A transição para o socialismo representaria, mais que revolução política, um choque de racionalidade e de eficiência gerencial. A nova economia socialista teria planejamento central, rígida disciplina e uma ditadura voltada para o desenvolvimento material e o avanço da ciência. Não é esse o típico programa tecnocrático?


Pois essa revolução tecnocrática, paradoxalmente, não viria a ser feita pelos engenheiros, pouco afeitos à política e à rebeldia militante. O típico revolucionário teria de vir do outro lado: seria o advogado, o escritor, o intelectual humanista, a denominada intelligentsia, enfim.

Assim, a intelligentsia revolucionária da Rússia sem querer criava o monstro totalitário que acabaria por engoli-la. Uma revolução feita primordialmente para planejar a economia, construir estradas, usinas, portos e estaleiros, dar primazia às ciências exatas e biológicas; uma revolução que se guiava pela fórmula de Lênin – “o comunismo é igual ao poder soviético mais a energia elétrica”, uma revolução dessas é, obviamente, prato feito para os técnicos. Era questão de tempo: o poder revolucionário cedo ou tarde viria a cair nas mãos dos engenheiros. Foi o que aconteceu na União Soviética.

O socialismo soviético era, portanto, uma forma de tecnocra-cia, de ditadura dos engenheiros, militares e administradores. O que Gramsci e a Escola de Frankfurt fizeram foi inventar sua contrapartida: a futura ditadura dos intelectuais. Essa utopia, porém, era irrealizável naquela época, e por isso permaneceu décadas apenas como projeto. Ela só se tornou factível depois da queda do Muro de Berlim, quando surgiram as condições para que o novo regime se materializasse. É a democracia de massas, a ditadura da intelectualha “humanista”, o regime sob o qual o Brasil e vários países da Europa são governados.

Essa história explica porque a democracia de massas é controlada por políticos, sociólogos, politólogos, antropólogos, literatos, juristas, historiadores, etc. e tem tanta aversão pelos técnicos, militares e empresários. Mostra que a única luta de classes de fato é a luta entre as duas facções saídas das universidades. Dentro dessa ótica, a História recente do Brasil pode ser entendida como a do conflito entre essas duas facções. O regime militar foi a era da tecnocracia. A sua liquidação, obviamente, só podia conduzir ao presente Estado democrático de massas.

De tudo o que foi dito, sobram algumas perguntas. A mais intrigante é: se a queda do muro de Berlim foi o fim do comunismo, como se explica que tenha proporcionado à intelectualha marxista o total controle da América Latina e da Europa? Essa questão está ligada à parte que ainda não examinamos da história das universidades e da classe intelectual. Continua no próximo número do Inconfidência.

Economista, ex-aluno da Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo

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