A Arte comunista da cafetinagem

*A. C. Portinari Greggio

 

comunismoNo último Inconfidência falamos do Dia Internacional da Mulher, mostrando que essa data não é efeméride de coisa nenhuma, pois os fatos históricos que pretende comemorar nunca aconteceram. A coisa foi inventada pelos comunistas em 1910, como meio de mobilização de mulheres operárias. Por que mulheres? Como sempre, o motivo era vil: soldados e policiais hesitam em reprimir manifestações com mulheres e crianças. Qualquer incidente rende imensos dividendos em propaganda ao adversário. O golpe de explorar mulheres e crianças nos “movimentos sociais” funcionou tão bem que até hoje é usado pelos sem teto, os sem terra e os sem vergonha. Alexandra Kollontai, uma das inventoras do Dia da Mulher, gabava-se de que as manifestações na Rússia cresceram tanto que, em fevereiro de 1917, levaram à queda do czar e, meses depois, à tomada do poder pelos comunistas.

Embora a URSS tenha acabado, o Dia Internacional da Mulher continua, com patrocínio da ONU e da sua rede de ongues. Os objetivos mudaram. Já não se trata de revolução, mas de descolar verbas para os ongueiros e reforçar a idéia de feriados globais, os quais deverão, a medida que o governo mundial se estabelecer, substituir as efemérides patrióticas e religiosas de cada país.
Madame Kollontai arrogava-se defensora da mulher. Segundo ela, a mulher era prisioneira do casamento e da família. O casamento não passava de operação mercantil, na qual não havia lugar para o amor desinteressado. Mas a “ditadura do proletariado” mudaria tudo.Vejam como Alexandra Kollontai descrevia as mudanças revolucionárias: “Na ditadura do proletariado, as razões econômicas em que se baseia a família deixam de existir. (…) Como todos são obrigados a trabalhar, a mulher adquire novo papel na produção, de modo que o casamento e o lar perdem importância. A subordinação ao marido e a condição de mãe são postas de lado. A criação e a educação dos filhos são transferidas para a coletividade. A família só serve para desenvolver o egoísmo, e por isso prejudica a construção do comunismo. (…) Uma vez eliminado o papel da família no sustento e na educação das novas gerações, ela deixa de ser o centro da vida das mulheres, e cessa de ser família. A unidade familiar se reduz à união temporária de duas pessoas, com base no mútuo consentimento.”

Esse texto, intitulado “A moralidade comunista nas relações maritais”, foi escrito em 1921. Nele, a companheira Kollontai lamentava que a revolução não tivesse abolido, logo de cara, o casamento: “Se as relações entre os sexos podem ocorrer fora da família, o casamento deixou de ser problema da sociedade [e passou a ser assunto do casal]. (…) O Estado dos trabalhadores só deve responsabilizar-se pela mãe e pela criança, mas não deve reconhecer o casal. (…) A coletividade tem de assumir os direitos e deveres dos pais e manter a mais atenta vigilância sobre os filhos, no interesse da economia e dos futuros recursos de mão-de-obra. (…) A paternidade não deve ser determinada com base no casal. O homem deve ter o direito de escolher se quer ou não ser pai do seu filho.”

Não vou perder tempo em comentar essas idiotices. O que interessa é o seu efeito nos primeiros anos da revolução. Imagine: a Rússia sofrera tremendas baixas na Guerra. As duas revoluções de 1917 – uma em fevereiro e a outra em novembro – haviam arruinado as instituições, o governo e a economia. A guerra civil que se seguiu, agravada pela seca, trouxeram mais fome e anarquia. E como se não bastasse, o novo Estado “proletário” protegia o “amor livre” e a maternidade irresponsável, o aborto e o homossexualismo. O resultado não tardou: em 1924, algo entre 4 e 7,5 milhões de crianças abandonadas vagavam pela Rússia como animais selvagens, sobrevivendo de furtos, assaltos e prostituição. Eram denominados os sem lar, ou besprizornye.

Em 1924 Lênin teve um derrame e a Rússia ficou sem governo. Manobrando com astúcia, Stalin tomou o poder e logo instituiu campos de trabalho para recolher e reeducar os menores abandonados. Novas leis restauraram o casamento e a família, segundo o mais “burguês” dos modelos. Prisões e expurgos liquidaram quase toda a velha guarda do Partido. Alexandra Kollontai, que Stalin considerava “uma puta”, teve sorte de ser mandada para o exterior como embaixadora e morrer de morte natural em 1952.

Vejamos agora como viviam as mulheres liberadas pelo comunismo. Na Rússia havia duas castas de mulheres: as da nomenklatura e as outras. Essas últimas, a imensa maioria da população feminina, estavam à disposição dos donos do poder. Nenhuma tinha a honra ou o pudor protegido contra ataques sexuais dos poderosos. Imaginem o que poderia acontecer à jovem que dissesse não ao figurão do KGB ou do Partido: no mínimo perderia o emprego e a moradia. Seus amigos, assustados, passariam a evitá-la. O pai, os irmãos e o namorado cairiam em desgraça. Surgiriam denúncias que poderiam levá-los à morte ou ao GULAG. É claro que não havia como resistir.

Nos países comunistas as mulheres eram sistematicamente prostituídas. As únicas a salvo eram as da nomenklatura. Mas nem essas estavam livres de ultrajes, quando o ataque vinha de cima. Não por acaso, quando o regime desmoronou em 1991 e o povo foi esfomeado pelo choque econômico, milhares de russas invadiram os bordéis da Europa. Para muitas, aquilo não passava de continuação da moral socialista ensinada e praticada no seu país por setenta anos.

Economista, ex-aluno da Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo

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