O manifesto que o PETÊ não publica

*A. C. Portinari Greggio
Felizmente para o petê, a elite brasileira não acredita em espectros.

Antes de começar, a gente queríamos esclarecer porque a gente se chama petê. O nome é PT, mas todos sabem que não é Partido, nem a gente somos Trabalhadores. Partido é aquilo que está na legislação eleitoral. Nós, do Foro de São Paulo, não somos Partido; somos um movimento chefiado pelos companheiros Fidel e Raul, e o nosso negócio não é o Brasil, é a URSAL. E também não somos dos Trabalhadores porque nenhum de nós nunca trabalhou na vida. Se não é partido, nem é de trabalhadores, então...? Nossos adversários chamam a gente de quadrilha. Mas não é quadrilha, porque a gente tem um ideal. Certo que a gente rouba, mata, assalta, compra, vende, mente, faz qualquer negócio, mas tudo por ideal. Esse ideal, a gente não abre mão dele de jeito nenhum. Então, como é que fica? A gente não é PT, nem quadrilha, nem tribo, nem máfia, mas a gente é tudo ao mesmo tempo. Qual o nome, então? Não existe na língua brasileira. Por isso, a gente vai se chamar petê. Entenderam?

Pronto. Agora podemos explicar nosso ideal. O Manifesto Comunista, escrito pelos companheiros Marx e Engels, começava com uma declaração que assustava: Um espectro assombra a Europa – o Espectro do Comunismo. Todas as forças da velha Europa se uniram numa Santa Aliança para exorcismá-lo.

Infelizmente os companheiros Marx e Engels erraram nesse negócio de espectro. Naquela época eles usavam barbas e roupas escuras, e conspiravam, e explodiam bombas, e achavam que só iam chegar lá pela revolução sangrenta. Em Paris, em 1870, foi assim. Depois, na Rússia, os companheiros mataram e prenderam e liquidaram e expurgaram. Depois, veio o Mao, na China, pior ainda. E o Vietnã. E o Camboja. E Cuba. Esses companheiros só acreditavam na revolução. Por isso, o comunismo era o espectro que assustava.

Quer dizer, assustava, mas não todo o mundo. Aqui no Brasil, por exemplo, o espectro assustou muita gente, mas não as Forças Armadas. Quando os companheiros tentaram a revolu ção, os militares enfrentaram. Duas vezes a gente se ferrou com eles. Cá entre nós, até eles que foram bons demais. Eles sabiam o nosso ideal. Eles sabiam que, se a gente chegássemos ao poder, a gente ia mandar muita gente para o paredão. A gente ia acabar com todo mundo que fosse contra. A gente ia confiscar tudo. E o pior é que ninguém ia poder fugir pra Miami. Os militares sabiam, porque eles estouraram nossos aparelhos e pegaram nossos papéis. Mas, surpresa, eles não castigaram a gente, eles tiveram dó. Eles achavam que a gente era jovens desorientados e que tinha aprendido uma lição.
Companheiros, a gente nunca enganou os militares. É por isso que a gente não confia neles e quer eles longe da gente.
Mas a gente descobriu que tinha um jeito mais fácil de vencer: em vez de guerra, e de enfrentar o Exército, a gente podia ganhar eleições chegar lá. Foi preciso que os companheiros nas universidades ensinassem muita sociologia, pissocologia, pedagogia e um monte de logias e gogias, muitos anos, e a gente tivesse tempo de tomar conta dos jornais, das tevês, de tudo. Aí, ficou fácil. A gente começamos a conversar direto com os capitalistas, banqueiros, empresários, os caras da FIESP, até mesmo os agronegócios. Foi aí que a gente descobriu como é fácil levar esses caras na conversa. A gente nem precisou mexer nos nossos ideais. Está tudo lá. É só ler os programas do petê e do Foro de São Paulo, dos companheiros do PC do Bê, e do MST, e das FARC. A gente está ligado com Cuba, Coréia do Norte, o Califado, a Al-Caida, e a gente prometeu que vai
fazer tudinho igual a eles. Mas, quer saber? Os únicos que não brincam com essa história de ideal são os militares, porque com eles não tem jogo duplo: falou, tá falado. Não dá pra conversar.

A burguesia e os capitalistas são outra coisa. A gente chega, e trata eles bem, e conversa com eles, e eles na mesma hora acham que a gente mentiu o nosso ideal, que no fundo a gente quer mesmo é se enturmar com eles. Quer saber porque eles acha que a gente não tem ideal? É por causa da democracia. Na democracia todo mundo mente. Ninguém discute sério. É marqueteiro contra marqueteiro. Ganha quem é mais esperto, e todo mundo bate palma. É por isso que a gente se deu bem na democracia: a gente tem ideal mas ninguém acredita. Que susto que eles vão levar.

Olha só. A companheira Dilma e o petê estava mais suacaf que pau de galinheiro com aquele esquema da Petrobrás. Os industriais estava contra a gente. O agronegócio, nem se fala. Todo mundo achava que a gente é ladrão. Todo o dia aparecia mais um companheiro metido em maracutaias. Pra encurtar a história: a gente não prestava mais. Aí, o que é que a gente fez? Nada. A gente disse: olha, esquece o que a gente era. Volta a fita. Apaga. A gente mudou. O petê mudou. Hoje somos outros.

Acredite, companheiros e companheiras: na mesma hora eles ficaram aliviados. Sorriram. Que bom. Eles pensavam que a gente era comunista, só porque a gente é comunista. Eles achavam que a gente queria acabar com eles, só porque o nosso ideal é acabar com eles. Eles achavam que a gente é sócio das FARC, só porque as FARC é sócia da gente. Mas foi só a gente dizer que quer diálogo, fingir que vai investigar a Petrobrás e indicar uns nomes pro Banco Central e pra Fazenda, na mesma hora o dólar caiu e a bolsa subiu.

Sabem qual é o cúmulo? Depois de doze anos e de tantas denúncias, caiu a ficha dos tucanos. Hoje eles pediram uma auditoria nas urnas eletrônicas. Pediram pra quem? Pro companheiro Tófole. A gente morremos de rir.

Companheiros, a gente não precisa mudar nada. Nossos ideais continuam os mesmos. E eles também continuam os mesmos babacas de sempre.
* Economista
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