Decisão insana

*Manoel Soriano Neto

E o Rio de Janeiro está sob intervenção federal, que, dizem, foi improvisada e sem qualquer planejamento. Ela será o mais do mesmo,uma mera vulgarização ou banalização de emprego de boa tropa, se, entre outras, as medidas tão bem preconizadas pelo genera l Heleno, não forem tomadas de imediato; e se adrede não se estabelecerem bem definidas ‘regras de engajamento’ para os militares em ação, porquanto o quadro social naquele estado é de total anomia. Caso isso não aconteça e se não lhes for dado o imprescindível respaldo jurídico (com o devido ‘poder de polícia’, a ‘excludente de ilicitude’ quando das operações, sem os arbitrários, mas necessários, sim, ‘mandados coletivos de busca, apreensão e captura’, sem a suspensão temporária das ‘audiências de custódia’, etc., etc.), as FFAA serão maisumavez utilizadas por esse desgoverno que aí está, como joguete de uma ação diversionária, para encobrir o fracasso da votação da impopular reforma da Previdência... De pouco adiantaria, nessa conjuntura, a criação, com grande estrondo publicitário, de mais um ministério – o da Segurança Pública... 
 
Outro assunto muito digno de nota: desde meados de janeiro, ficou combinado em uma reunião sem transparência, sem debates e ‘a toque de caixa’, por uns pouquíssimos donos da verdade - sem que se cogitasse da aconselhável convocação e consulta ao Conselho de Defesa Nacional -, que o Brasil participará de uma Missão de Paz (?) na conturbada e explosiva República Centro-Africana, tão somente para atender os rogos da esquerdista ONU, cujo secretário-geral é o português e socialista António Guterres. O presidente da República se ilude ao imaginar que deixará uma marca pessoal e indelével na história da política externa brasileira, ao esperar da futura missão, o mesmo êxito das FFAA no Haiti. Nessa toada, embarcaram os ministros da Defesa e das Relações Exteriores (aliás, como não poderia deixar de ser, em face de seus históricos e bem conhecidos viezes ideológicos). A interrupção da pandêmica violência no dito país, impedindo que tudo se transforme em uma Somália (na atualidade, completamente tomada por facções terroristas), será o objetivo maior da citada ONU.
 
A RCA, ex-colônia francesa desde 1960, há tempos vem sendo assolada por graves crises político-militares, hoje com 80% (!) de seu território nas mãos de grupos rebeldes, que se digladiam, sem piedade, contabilizando-se milhares de mortos na luta de muçulmanos x cristãos – já se falando em genocídio. E mais: por lá, está presente e militante, o terrível grupo terrorista islamista nigeriano Boko Haram, pioneiro na prática de atos de terror nos quais utiliza mulheres e crianças, a par da ‘máfia nigeriana’, com atuação em vários continentes (vide as últimas ações facinorosas perpetradas na Itália...).
 
Por isso, a RCA já constado mapa do terrorismo internacional, como asseveram analistas de tomo. Destarte, a tresloucada deliberação, ora em comento, se afigura como algo surreal, melhor dizendo, estupefaciente!! Querem nos mandar apartar uma crudelíssima guerra civil, que não é nossa, sem que sequer comandemos a Missão, como ocorreu em São Domingos (com a FAIBRAS) e no Haiti, por treze anos. “
 
 
Medo do perigo?”, como afirmou, alhures, um ingênuo desconhecedor de nosso valoroso povo? Em várias ocasiões de nossa rica História Militar, máxime nos dois maiores conflitos externos de que participamos: a Guerra do Paraguai (que o tal do discurso ‘politicamente correto’, quer que seja denominada de “Guerra da Tríplice Aliança” ou “Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai” – tenham a santa paciência...) e a Campanha na Itália quando da II GM, com a FEB, foram evidenciados, à saciedade, a nossa capacidade de combate, o estoicismo, a coragem e a bravura do brasileiro. Em suma, com o País quebrado (e que pode, sim, virar alvo preferencial do radicalismo religioso!), a segurança pública em pandarecos, os orçamentos das FFAA cada vez mais  reduzidos, etc., etc., vamos nos dar ao luxo de enviar um contingente militar (que estará vulnerável a ser contaminado por ideias exóticas e indesejáveis!) ao exterior???? “
 
O Exército é um instrumento de Estado e não de governo”, declarou, recentemente, com muita propriedade, o comandante de nossa eterna Instituição.
 
Não podemos embarcar nessa canoa furada!! A fim de que seja abortada essa insana decisão, com a palavra os comandantes das Forças Singulares, e, principalmente, os parlamentares!! 
 
São Paulo, São Paulo, fevereiro de 2018 
* Historiador Militar e Advogado.
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