Os Tiros-de-Guerra, uma solução brasileira

*Paulo Cesar de Castro

Em 27 de setembro de 1907, foi criado o primeiro Tiro-de-Guerra (TG) , pouco antes da instituição do serviço militar obrigatório, em 1908. Os TG multiplicaram-se, mantiveram-se durante todo o século passado e chegaram ao Século XXI totalizando 250 organizações militares, distribuídas em todo o território nacional. Os TG são órgãos de forma ção da reserva (OFOR), decorrem de um esforço comunitário municipal e permitem a prestação do serviço militar inicial, no próprio município sede do TG, dos convocados e não incorporados em organização militar da ativa, de molde a atender à instrução militar, permitindo conciliar o trabalho e o estudo do cidadão.

Até mesmo por concepção genética, sobressai nos TG o DNA do apoio da população, oficialmente injetado nos convênios que celebram o Exército e os Executivos Municipais. A Prefeitura incumbe-se da construção e conserva ção da sede do TG, do estande de tiro, da disponibilização de imóveis para residência dos sargentos instrutores e suas famílias, bem como da assistência médico-odontológicahospitalar para estes militares e seus dependentes. Incumbe-se, também, do fornecimento do material necessário ao funcionamento do TG, exceto itens de emprego militar, como armamento, munição, equipamento e uniformes, responsabilidade do Exército.

 

O diretor do tiro-de-guerra é o próprio prefeito municipal, o que bem demonstra a íntima ligação que estes OFOR têm com os municípios hospedeiros, suas autoridades, populações e instituições legislativas. Esta característica é reforçada pela necessidade de lei municipal para amparar as iniciativas e as responsabilidades assumidas pelo poder executivo, alocando-lhe, anualmente, os recursos orçamentários necessários para que o TG possa bem cumprir sua missão.

Os Sargentos, Líderes Militares dos TG Os sargentos dos TG são combatentes da ativa, criteriosamente selecionados entre os melhores para assumir as responsabilidades de chefe da instrução (o mais antigo) e de instrutores dos atiradores, denominação dada aos jovens recrutas que prestam o serviço militar nos TG. Esses sargentos cumprem suas missões em condições bem diferentes das dos seus pares em outras organizações militares do Exército, o que muito valoriza o trabalho que desenvolvem, alicerçado, necessariamente, em elevadas doses de iniciativa, criatividade, sociabilidade e adaptabilidade.

Os sargentos dos TG são preparados para:
- servir em guarnição isolada, muito distante da unidade da ativa mais próxima e mais distante ainda da sede da Região Militar à qual os TG estão subordinados;
- acumular as responsabilidades de comandante de guarnição, de organização militar, de instrutor de tropa, de segurança pelo material bélico do TG, de representante do Exército no município, de orientador e educador de jovens com dezoito e dezenove anos de idade, em regra;
- serem agentes de comunicação social do Exército em seus municípios, para o que são chamados a manter laços fraternos com outras instituições privadas e públicas com sede na mesma região;
- serem agentes dos sistemas de inteligência e de fiscalização de produtos controlados, no território de competência de seu TG;
- manter ligação permanente com a Companhia de Comando e Serviços da Região Militar, subunidade da ativa que os enquadra;
- exigir ao máximo e estimular seus atiradores em prol da total dedicação às atividades militares, mesmo cientes de que, ainda que voluntários, nada percebem a titulo de remuneração;
- fazer constantes gestões junto aos prefeitos municipais no sentido de dotar os TG do material necessário a seu funcionamento, bem como de aprimorar e manutenir as instalações dos quartéis e dos estandes de tiro do TG;
- revelar habilidade no relacionamento com unidades de Polícia Militar sediadas na área, em geral comandadas por oficiais, portanto, militares de maior nível hierárquico que os próprios sargentos chefes da instrução;
- manter-se atualizados com tudo o que ocorre no Exército, a despeito das distâncias físicas que os isolam dos escal ões enquadrantes;
- proferir palestras, ministrar aulas e participar de mesas redondas em conjunto com representantes
de outras instituições da área, quase sempre com presença da mídia regional.

Eis a síntese do desafio que enfrentam nossos sargentos em seu dia a dia. Tive a grata oportunidade de, quando comandante da 4ª Região Militar e 4ª Divisão de Exército, em Minas Gerais , visitar e inspecionar os trinta e três TG que me eram subordinados. De todos, sem exceção, saí vibrando e entusiasmado com o valor militar de nossos sargentos e com o alto conceito que o Exército desfrutava em suas comunidades municipais, fruto eloquente da eficácia com que exerciam a liderança militar de sua tropa e da efetividade com que venciam os desafios de sua função, notadamente na conquista do apoio da população municipal.

* General-de-Exército Foi Chefe do DEP - Departamento de Ensino e Pesquisa e Comandante da 4ª RM/4ªDE

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