“Deus não virou chinês, Ele continua carioca”

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CHARLES TANG, PRESIDENTE DA CÂMARA DE COMÉRCIO E INDÚSTRIA BRASIL-CHINA

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. As relações econômicas entre os dois países, no entanto, estão apenas esquentando. Segundo Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, os chineses estão aquecendo os motores. “Tem umas seis ou oito gigantes querendo vir para o Brasil que ninguém nunca ouviu falar”, diz Tang. Há muito interesse na área de infraestrutura, especialmente no setor de energia, no qual já foram feitos grandes negócios, como a compra da CPFL pela State Grid. Porém, existem outros setores em que a segunda maior potência econômica do mundo tem interesse, entre eles o agronegócio.

O problema está na legislação brasileira que proíbe a compra de terra por estrangeiros e precisa mudar, segundo Tang. “Os nossos vizinhos na América Latina e alguns países africanos agradecem muito a bondade brasileira de espantar esses investimentos”, afirma, com ironia. Além desse obstáculo legal, o que pode atrapalhar a vinda dos chineses é a continuidade da crise política e o famoso custo Brasil. “Se não baixar o custo, o Brasil nunca vai sair do modelo econômico de pobreza”, diz. “O Brasil tem de ser mais amigável ao negócio.” Confira a entrevista:

DINHEIRO – Recentemente, houve algumas grandes compras de empresas brasileiras por chinesas, como a da CPFL pela State Grid. Há mais empresas da China interessadas em investir no Brasil?

CHARLES TANG – Todo mundo aqui conhece a State Grid e a CTG (China Three Gorges, que comprou os ativos da Duke Energy no Brasil). Mas tem umas seis ou oito gigantes chinesas que ninguém ouviu falar querendo vir para o Brasil. A terceira maior geradora de energia da China, por exemplo, está interessada em instalar um parque eólico de 700 megawatts. Tem gente interessada em saneamento. Fora a parte de ferrovias. O fato é que a onda de investimentos vai começar. Tem várias áreas novas em que os chineses estão chegando.

DINHEIRO –A área de infraestrutura é o principal interesse?

TANG – Não somente. Há um interesse no agronegócio. O objetivo é dar segurança alimentícia para o povo chinês. Mas a proibição da compra de terra por estrangeiros restringe esses investimentos. Acredito que os grandes fazendeiros daqui não querem essa concorrência. Mas isso é uma falácia. É um nacionalismo antinacionalista, porque a única coisa que evitou foi a entrada de US$ 90 bilhões em investimentos. Os nossos vizinhos na América Latina e alguns países africanos agradecem muito a bondade brasileira de espantar esses investimentos.

DINHEIRO – A China, historicamente, apresenta níveis elevados de corrupção. No atual momento brasileiro, isso não pode ser um problema?

TANG – Mais de 100 mil oficiais chineses foram presos por corrupção, nos últimos anos. Mas, lá, não se destruiu uma empresa. Os corruptos têm de ir para cadeia. Agora, o que não pode é quebrar companhias e causar 13 milhões de desempregados. Por que a empresa e os empregos são patrimônios da sociedade, não do acionista. Na China, anos atrás, toda a liderança da CNPC, maior empresa de petróleo do país, acabou presa. Então, foi colocado outro presidente e toca-se a vida. Por causa de 70 executivos, não dá para destruir o País e deixar milhares de pessoas desempregadas.

DINHEIRO – Os chineses estão interessados em comprar alguma das empresas envolvidas na Lava Jato?

TANG – Depois da leniência, sim. Há negociações com a Camargo Correa.

DINHEIRO – Há dúvidas, ainda, quanto ao modelo de investimento chinês, especialmente em relação ao meio ambiente. De que maneira a China pretende trabalhar no Brasil?

TANG – Da mesma forma do que no resto do mundo. Os chineses, hoje, têm uma legislação ambiental severa. Milhares de empresas foram fechadas por serem poluentes. O uso de termoelétricas a carvão caiu. A China é o maior produtor de energia renovável do mundo. Acho que os chineses certamente respeitam as restrições e as leis de cada país. A diferença é que a China não manda os fuzileiros, manda seus empresários. Não desperdiça sangue. Por onde os chineses passam, há desenvolvimento e prosperidade.

DINHEIRO – A China é o maior parceiro comercial de mais de 100 países, o que a coloca em uma posição de muito poder…

TANG – Certa vez, um jornalista britânico me perguntou se a China é o novo mestre colonial do mundo. Eu respondi que os antigos mestres coloniais da África sugaram a riqueza da região. A África foi o continente perdido por anos, até que os africanos decidiram investir em infraestrutura e tiveram as maiores taxas de crescimentos da década. E isso graças à participação dos chineses. A China vai investir trilhões de dólares na África e deixará um legado de desenvolvimento.

DINHEIRO – Isso vai acontecer, também, no Brasil?

TANG – Só nos próximos 12 meses, eu prevejo uns US$ 20 bilhões de investimentos chineses. Mas só um projeto no qual estou trabalhando, que ainda não posso revelar, pode dobrar esse valor.

DINHEIRO – O que pode atrapalhar esses investimentos?

TANG – A continuidade da instabilidade política econômica e a não redução do custo Brasil. Eu não conheço o presidente Temer, mas acho que, para um político, aceitar tomar medidas impopulares em benefício do País, é muito difícil. Se não baixar o custo, o Brasil nunca vai sair do modelo econômico de pobreza. Esse é o problema. Tudo que gera pobreza a gente inclui no nosso modelo econômico. Isso pode atrapalhar. O Brasil tem de ser mais amigável ao negócio.

O empreiteiro Marcelo Odebrecht modernizou o setor de propinas do grupo, mas foi condenado e perdeu quase 100 mil funcionários
O empreiteiro Marcelo Odebrecht modernizou o setor de propinas do grupo, mas foi condenado e perdeu quase 100 mil funcionários (Crédito:Heuler Andrey)

DINHEIRO – Como deve ser o modelo econômico, na visão dos chineses?

TANG – Muito diferente. Em 1974, quando Brasil e China reataram relações, o Brasil era cinco vezes mais próspero. Hoje, a China é oito vezes mais próspera do que o Brasil. Deus não virou chinês, Ele continua carioca. Acontece que, aqui, temos duas visões econômicas que levam à pobreza. A nossa centro-direita acredita que, a cada dois anos, é necessário quebrar todas as empresas com juros altos para preparar o caminho para o desenvolvimento sustentado. Tentamos isso mais de 20 vezes, em trinta anos, e nunca deu certo. Mas somos muito persistentes. A nossa centro-esquerda, por sua vez, ainda tem apego a dogmas socialistas que a China jogou na lixeira há 40 anos para começar a crescer. Eu sempre digo que a gente nunca permitiu ao Brasil crescer. Toda a vez que a nossa economia ameaça subir, vamos correndo aumentar a taxa de juros para manter a tal da estabilidade monetária. Como vai crescer? A China avançou porque colocou a prosperidade a qualquer custo e adotou políticas econômicas pragmáticas e não dogmáticas. Não interessa se usamos capitalismo ou socialismo, desde que alcancemos a prosperidade. Mesmo à custa do principal dogma do comunismo, que é a igualdade – aliás, tudo o que os comunistas conseguiram foi igualar a pobreza – e mesmo com impactos ambientais severos.

DINHEIRO – No Brasil, a prioridade não é a prosperidade?

TANG – Nossa prioridade nunca foi a prosperidade, sempre foi a estabilidade monetária, mesmo à custa da nossa pobreza sustentada. No tempo do Fernando Henrique Cardoso, tomamos um PIB inteiro emprestado do FMI (Fundo Monetário Internacional) e queimamos para manter a estabilidade. Qualquer fiscal do fundo que vinha para o Brasil era a esperança da nação. Pagar esses juros altos é o que cria o déficit fiscal do governo. O consenso de Washington, que era forçado pelo FMI a todos os países, tem partes boas, como as privatizações. Mas tem uma parte perversa, que é a estabilidade monetária. Os tigres asiáticos, que nunca seguiram a cartilha do FMI, entenderam que o caminho não é esse. É óbvio que se você aumenta os juros, quebra todas as empresas e baixa a inflação. Só que, o capítulo dois diz que, se você baixar o custo do país, consegue baixar a inflação e estimular a prosperidade. Nossos economistas não leram o capítulo dois.

DINHEIRO – Agora, durante o governo de Dilma Rousseff, foi tentado algo parecido, e não deu certo…

TANG – Ela tentou, de maneira errada, reduzir o custo Brasil. Mandou baixar os juros, mandou fazer a desoneração fiscal, mas para alguns segmentos da economia. Forçou a quebra do monopólio dos estivadores. Mas não é assim que funciona a economia. Enfim, ela percebeu a necessidade de se reduzir o custo Brasil, mas fez tudo de maneira muito atabalhoada.

Lula, Dilma e Guido Mantega erraram ao tentar reduzir o custo Brasil. Para Tang, a centro-direita também exagera nos juros
Lula, Dilma e Guido Mantega erraram ao tentar reduzir o custo Brasil. Para Tang, a centro-direita também exagera nos juros(Crédito:Alan Marques / Folha Imagem)

DINHEIRO – Hoje, a discussão econômica no Brasil segue polarizada entre essas duas visões que, na opinião do sr., levam à pobreza?

TANG – A esquerda brasileira sempre quis distribuir a riqueza que nós não temos, em vez de criar riqueza. Aí causa um déficit gigantesco. A gente vê como o governo atual está tentando tirar as amarras da economia brasileira. Nossa legislação trabalhista é da década de 1940, o mundo mudou muito desde então. A legislação previdenciária quebra qualquer país. Está sendo uma batalha mudar isso, porque nosso povo ainda acredita que dá para dividir a riqueza que não possuímos. Temos de criar riqueza para poder distribuí-la, como a China fez. A maior conquista dos direitos humanos foi obtida pelos governos chineses, desde Deng Xiaoping. Mais de 700 milhões de pessoas deixaram a miséria. Isso é a maior conquista da história. A essência dos direitos humanos é permitir que as pessoas tenham o mínimo de dignidade.

DINHEIRO – Há, no entanto, muitos problemas relacionados a liberdades individuais na China…

TANG – Se hoje houvesse voto na China, o Partido Comunista ganharia com larga maioria. A verdade é que o povo chinês, em seus mais de cinco mil anos de história escrita, nunca viveu tão bem quanto agora. Você pode achar o que quiser do partido, mas não pode dizer que não é competente. Em uma geração, transformaram uma grande miséria na segunda maior economia do mundo, caminhando para ser a primeira.

DINHEIRO – Daria certo um modelo desses no Brasil, considerando que não temos a capacidade de mobilização do Partido Comunista chinês?

TANG – Eu já trabalhei em oito países. Nunca vi um povo mais patriota e disciplinado do que o Brasileiro. Vou explicar e ressalto que não bebi no almoço (risos). Não existe, no mundo, um povo que mais necessita de sonho e esperança do que o brasileiro. Por isso, o brasileiro sacrifica qualquer coisa. No apagão, todo mundo bateu continência. No confisco do Collor, ninguém gostou, mas era para o bem da nação. Faz isso na China para ver o que acontece. No Plano Cruzado, todos queriam ser fiscais e laçar boi no pasto. Na época do Castelo Branco, todos queriam doar ouro para pagar a dívida externa. O Brasil é tão fácil de mudar que o Juscelino Kubitschek, em um só governo, transformou uma sociedade agrária em uma economia industrial; o Collor, em meio governo, mudou a cabeça do povo. A cada malfadado plano, nós fizemos profundas reestruturações na estrutura financeira do País, e sempre contando com o sacrifício do povo. O que falta para nós é saber como fazer para o País prosperar e ter um líder capaz de fazer isso.

DINHEIRO – Michel Temer é esse líder?

TANG – Ele está sacrificando sua popularidade para aprovar medidas que são necessárias. Vamos destravar o Brasil. Esse é o fundamento para o crescimento. Se você analisa como cresceram Japão, Coreia, China, etc, verá que a questão do custo é central. Todos começaram exportando bugigangas a preços baixos. Com essa receita, alavancaram o crescimento deles. O Brasil é um País abençoado, só não tem uma visão econômica abençoada por Deus. E não existe um povo que aceita tantos sacrifícios para o bem de um país.

DINHEIRO – Há quem acredite que isso seja uma passividade excessiva, na realidade.
Não é?

TANG – Não. Um milhão de pessoas protestaram na avenida Paulista. Isso não é passividade. É a necessidade do sonho e da esperança de dias melhores.

 

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