Amazônia - o grande desafio (V)

Manoel Soriano Neto

Dando prosseguimento ao estudo de fatores fisiográficos da Amazônia Brasileira, abordaremos alguns aspectos julgados de relevância,  referentes à foz, embocadura ou estuário de nosso ‘Rio-Mar’, o maior curso d’água em volume e comprimento do planeta.
 
A foz ou ‘boca’ do rio Amazonas é de superlativas dimensões, aliás, como tudo na região amazônica. Ela vai do Cabo Norte (AP) até à Ponta da Tijoca (PA), numa extensão de cerca de 330 km. Atualmente, são por demais preocupantes dois fenômenos naturais que lá ocorrem: 1) a elevação do nível do mar associada ao depósito de sedimentos, que vêm provocandoumalargamento de 10 mil ímetros anuais, da dita foz; e 2) a diminuição da profundidade do rio - o que causa embaraços à passagem de navios de grande calado, em um curso d’água de navegação internacional, afetando os portos de Belém e Manaus -, mercê do acúmulo de detritos que nela se depositam, trazidos pela correnteza, desde os Andes.
 
Este material acumulado em quantidades cada vez maiores a cada ano, além de deixar os seus resíduos nas terras ribeirinhas, formando os manguezais do Amapá, Pará e Maranhão, é espalhado em todas as direções (vai, inclusive, até às Guianas e ao Suriname), e penetra no Atlântico a mais de 200 km da costa. No meio dessa imensidão aquática, encontra-se o arquipélago da ilha de Marajó (PA), a maior ilha fluvial do mundo, de 40 mil quilômetros quadrados, que está perdendo território em suas terras firmes de planície, devido à elevação oceânica e acumulação de resíduos, o que vem causando danos à economia local (notável é o seu criatório de búfalos).
 
A ilha, por isso, poderá, a muito longo prazo, ser tragada pela foz do Amazonas. O ‘Mar Doce’ lança no Atlântico, 6,3 trilhões de metros cúbicos de água que contêm 1,2 bilhão de toneladas de detritos; isto é assaz prejudicial, porquanto o entulho, de imenso volume, é de dificílima dragagem. A incomensurável força das águas arrasta árvores e terras dos barrancos das margens do rio, além de colossais troncos e até embarcações que se atrevem a enfrentar o forte caudal na parte mais violenta violenta da embocadura. As águas fluviais vencem as do Oceano Atlântico por inúmeros quilômetros, sem que nelas se encontre um grama de sal, sendo os peixes somente de água doce (!), havendo a deletéria prática, por navios-tanques, da ‘hidropirataria’, o que será comentado noutra oportunidade.
 
O encontro das águas provoca o fenômeno da ‘pororoca’, cujo estrondo pode ser ouvido a até 10 quilômetros de distância (tal encontro, pasme-se, é tão poderoso que interfere na gravidade da terra, segundo conspícuos pesquisadores)... Assinale-se, outrossim, que a embocadura do Amazonas encontra-se sobre uma placa tectônica sujeita a terremotos (em 1970, houve um abalo sísmico, de magnitude média, que foi sentido até em Belém do Pará).
 
Para a defesa e guarda da cobiçada Amazônia, imprescindível é a estratégica foz do Amazonas, principal porta de entrada para a maior bacia potamográfica do universo. As FFAA brasileiras muito bem conhecem o problema e o estudam com percuciência, cabendo à Marinha do Brasil, em caso de guerra, o bloqueio naval do vasto estuário, em combinação com as outras Forças. Aduza-se que o Exército Brasileiro está instalando uma Brigada de Infantaria de Selva em Macapá (AP).
 
No próximo artigo, trataremos dos chamados ‘rios voadores’, que carregam água, movidos pelos ventos. Ao colidirem com os Andes, de 7 mil metros de altitude, são desviados para o Sudeste e o Sul, trazendo chuvas benfazejas. 
 
* Coronel, Historiador Militar e Advogado Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
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