Porque Tiradentes é o Patrono Cívico do Brasil / Porque Tirandentes é o Protomártir da Independência / Tiradentes: Origem e aparência

* Adalberto Guimarães Menezes

O Patrono é uma personalidade escolhida como figura exemplar, que encarna ou sintetiza as virtudes características de um segmento da sociedade, mantendo vivas as suas tradições. Pode significar também Protetor, ou ainda Padroeiro, segundo Aurélio. Os católicos consideram que Nossa Senhora Aparecida é a protetora do Brasil e encarna todo o sentimento religioso do povo brasileiro, sendo por isso cultuada como a Padroeira do Brasil.

Civismo, conforme se lê nos dicionários, é o patriotismo, é o espírito público, é o desprendimento em prol da Pátria.

Estudando-se nossa história, vê-se que a Inconfidência foi o primeiro movimento que reuniu um grupo de pessoas com a finalidade de criar a Pátria Brasileira, e Tiradentes, seu líder, foi o inconfidente que mais propagou a liberdade, como seus companheiros presos afirmaram, e até mesmo acusando-o; seu amor pelo país era tão grande que desdenhava dos avisos para ser mais prudente pelo risco que sua vida corria; materialmente nada tinha a ganhar com a vitória; seu desprendimento foi total, doou-se inteiramente ao sonho da liberdade e da soberania. E por estarem concentrados em sua pessoa e em sua existência os mais puros sentimentos e ideais que devem caracterizar todos os brasileiros, ele foi declarado nosso Patrono Cívico.

PORQUE TIRADENTES É O PROTOMÁRTIR DA INDEPENDÊNCIA

Muitos brasileiros morreram lutando contra o dominador português e os invasores holandeses e franceses bem antes de Tiradentes nascer, mas não estavam lutando pela nossa independência. Quando das lutas que empreendemos pela nossa soberania, em 1822 e 1823, brasileiros morreram realmente pela nossa independência, mas Tiradentes foi o primeiro a sacrificar-se pelo ideal da Pátria, e por este motivo recebeu o glorioso reconhecimento de Protomártir da Independência, isto é, o primeiro mártir, pois “proto” significa “primeiro”. Vejamos.

Em 1624 os holandeses invadiram a Bahia e de 1630 a 1654 dominaram grande parte do nordeste. A reação começou em Pernambuco, Alagoas e Paraíba, e sem auxílio de Portugal, uniram-se os brancos sob o comando de André Vidal de Negreiros, os índios com Felipe Camarão e os negros com Henrique Dias, e derrotaram os holandeses em duas grande batalhas, ambas travadas nos Morros dos Guararapes, onde se cobriram de glória. Acontece que eles lutaram e morreram, não pela independência, mas para devolver o território a Portugal, pois embora nascidos no Brasil se consideravam portugueses. Se eles se considerassem brasileiros, fácil teria sido proclamar a independência. Foram heróis, mas não pela nossa independência.

Em Minas Gerais várias foram as revoltas contra os portugueses e a mais famosa foi a de Vila Rica, hoje Ouro Preto, em 1720, na qual foi enforcado, e consta que esquartejado, Felipe dos Santos. Ocorre que todas as revoltas foram motivadas pela ganância das autoridades portuguesas, que asfixiavam os mineiros com impostos escorchantes ou injustas formas de cobrá-los, e nenhuma delas procurava a liberdade do país.
Em 1817 estourava em Pernambuco a Revolução Pernambucana, unindo Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, e sua finalidade era a independência daqueles três Estados e não a do Brasil. A repressão portuguesa enforcou e fuzilou muitos de seus chefes, verdadeiros heróis, porém não da independência do Brasil.

Quando D. Pedro I proclamou a independência, em 7 de setembro de 1822, as tropas portuguesas que aqui estavam não a aceitaram, e na Bahia, em 1823, muito brasileiros morreram lutando contra o exército português. Estes sim, foram heróis de Independência, mas não os primeiros.
Verificamos, então que nossa história é rica em momentos que mostram não aceitarem os brasileiros qualquer forma de opressão, mas até a Inconfidência Mineira nenhum deles teve características nacionais, de uma nação, de um sociedade que queria ser livre. Somente com a Inconfidência isso ocorreu e nela se elevou a figura ímpar do Alferes Joaquim José da Silva Xavier .
Então, porque a Inconfidência foi o primeiro movimento político cuja finalidade era fazer do Brasil uma nação soberana, e nela foi Tiradentes o único a morrer, ele é reconhecido como o Protomártir.

TIRADENTES: ORIGEM E APARÊNCIA

Tiradentes: era brasileiro filho de pai por tuguês e mãe brasileira, batizado Joaquim José da Silva Xavier. Nasceu numa fazenda que hoje está no município de Ritápolis, próximo a São João Del Rei e à cidade de Tiradentes, pertencente a seu pai. Ficando órfão ainda criança, foi criado por um tio, que lhe ensinou a arte de dentista, donde lhe veio a alcunha de Tiradentes. Trabalhou muitos anos como mascate ao longo das estradas, com tropa de burros, tendo ido até a Bahia; conhecia plantas medicinais e como fazer curativos; fez projetos de captação de água e construção de armazéns e outras obras no Rio de Janeiro; abriu parte da estrada que ligava Vila Rica ao Rio de Janeiro. Conhecia bastante de minérios.

Com 29 anos de idade entrou para o Regimento de Cavalaria de Minas Gerais como Alferes, correspondente a Tenente hoje. Naquele tempo não havia separação entre Exército, Polícia Militar e Polícia Civil, tudo era feito pela mesma tropa. Foi encarregado de muitas missões e viajava freqüentemente ao Rio de Janeiro, onde ficava às vezes por muito tempo. Sua tropa esteve destacada junto às estradas para perseguir e prender os bandoleiros que as infestavam.

Era inteligente, boa caligrafia, entendia bastante de latim, possuía dicionário de francês, lia livros sobre a independência americana. Tinha uma personalidade exaltada e inquieta, muita curiosidade, falava muito e era convincente. Por causa de suas atividades, suas idéias, suas pregações, chamavam-no, além de Tiradentes, também de “o corta-vento”, “gramaticão”, “o República” e “o Liberdade”, segundo o historiador Márcio Jardim. Não há nenhum quadro nem descrição mostrando qual era sua aparência física, de modo que sua figura que hoje vemos como Alferes não é exatamente seu retrato, e a de quando foi esquartejado o pintor parece querer fazê-lo semelhante a Jesus Cristo. Nasceu no Sítio Fazenda do Pombal, hoje município de Ritápolis em data desconhecida do ano de 1746, sendo batizado em 12 de novembro de 1746. Foi preso no dia 10 de maio de 1789 e enforcado no dia 21 de abril de 1792, com 45 ou 46 anos. Era solteiro mas deixou uma filha, que morreu ainda criança.

Como foi enforcado e era considerado mártir, os artistas - pintores e escultores - representaram-no parecendo querer compará-lo com Jesus Cristo em seu martírio: cabelos e barbas longas; e essa aparência se popularizou.

Qualquer artista pode representá-lo como desejar, pois não há nenhuma descrição ou quadro a retratá-lo. Entretanto o governo federal chegou a editar um decreto, em 1966, estabelecendo como modelo para a reprodução de sua efígie a estátua existente à frente do Palácio Tiradentes, no Rio; posteriormente revogou-o.

Em que pese a liberdade artística para representar o Patrono Cívico da Nação; eu creio que devemos nos limitar a dois modelos: um deles a tradicional, como imaginado na hora de seu sacrifício, e o outro é a figura de Alferes, fardada, moço ainda forte, vivo, a pregar nossa soberania. Prefiro esta última imagem, que exorta para a vida e à luta pelo bem da Pátria.

Se, Tiradentes foi um herói na hora da morte, maior herói foi em vida. Seu sacrifício foi a culminância trágica do sonho libertário, mas não foi seu holocausto que alçou a heroicidade, por mais sublime que tenha sido, e sim o ter sido um dos idealizadores de nossa independência, o maior articulador, o mais eficiente aliciador de adeptos, seu maior propagador, a pessoa mais visível do sonho procurado. E é assim que devemos imaginá-lo e representá-lo, para exemplo de todos os brasileiros: o Alferes garboso e resoluto, que olha para a frente, confiante no glorioso destino do Brasil! Antes de imaginá-lo morto, imaginemo-lo vivo!

Agradecimento

Cel Adalberto Guimarães Menezes
Belo Horizonte - MG
Agradeço ao patriótico jornal INCONFIDÊNCIA o espaço cedido para a publicação, em cinco números, de didáticos artigos que respondem a várias indagações sobre a importância, em nossa história, do movimento libertário da Inconfidência Mineira, e de seu principal personagem, o Tiradentes.

* Do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais -
Cad. nº 72 - Alferes Joaquim José da Silva Xavier
Coronel Reformado
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