Porque Tiradentes é a figura mais importante da Inconfidência

* Adalberto Guimarães Menezes

Tiradentes era muito inteligente, tinha várias habilidades, porém não era o mais importante dos Inconfidentes. Como tal podem ser citados, seu comandante, TenCel Francisco de Paula Freire de Andrade, e ele um simples Alferes; Tomás Antônio Gonzaga era a maior autoridade judiciária da Capitania, de saber jurídico reconhecido até em Portugal, além de poeta renomado; José Álvares Maciel, engenheiro e cunhado do Governador; Salvador Carvalho do Amaral Gurgel, médico; José Aires Gomes, um dos fazendeiros mais ricos de Minas. De menor projeção que ele, social e economicamente, eram João da Costa Rodrigues, estalajadeiro; Antônio de Oliveira Lopes, piloto (agrimensor prático); Vitoriano Gonçalves Veloso, alfaiate e mulato. Tiradentes então estava situado em um ponto médio do grupo, sob qualquer aspecto. Mesmo na parte econômica muitos eram mais bem aquinhoados, embora Tiradentes possuísse bens que recebera de herança ou adquirira com seu trabalho.

Então – muita gente pergunta - por que ele sobressaiu, se tantos tinham mais projeção que ele? A resposta vamos ver agora.

Ele era curioso, tinha sede de saber, sua mente estava sempre em ebulição procurando criar alternativas e resolver problemas, e por isso, enquanto os demais ficavam pensando nas idéias de liberdade que chegavam, ele já procurava concretizá-las, através de sua divulgação e conquista de adeptos.

Era exaltado e intolerante com a injustiça e a desumanidade, constando que uma vez, quando era mascate, foi preso porque agrediu um homem que maltratava seu cavalo; era ansioso pela independência, crente de que com ela muitas injustiças seriam evitadas.

Era falador, loquaz. Se isto muitas vezes é considerado defeito, no caso da Inconfidência foi uma virtude, pois tendo esta particularidade e viajando muito, Tiradentes propagou o que pretendiam fazer ao longo das estradas e nas cidades.

Era imprudente e ousado. Numa época em que era muito perigoso criticar as autoridades, podendo uma pessoa ser presa e condenada por simples suspeitas, perigosíssimo era falar em liberdade para o país, era revoltar-se, Tiradentes o fazia com a maior desenvoltura, quase abertamente, imprudentemente é verdade, mas dando grande impulso ao movimento, mostrando a todos que o Brasil poderia ficar livre e soberano. E nenhum dos outros inconfidentes cometia tal imprudência, que se confundia com sua enorme coragem.

Quando foram presos, todos os inconfidentes negaram que estivessem planejando a independência do Brasil, o que é natural; mais tarde, quando viram que não adiantava mais negar, acabaram confessando, mas sempre procurando minimizar a própria participação, para que sua culpa parecesse a menor possível aos olhos das autoridades portuguesas, o que é perfeitamente natural e próprio da natureza humana.

Tiradentes também negou, porém posteriormente, quando soube que tudo já estava descoberto, acabou confessando, com a particularidade de que não procurou diminuir a própria responsabilidade. Ao contrário, disse que era responsável pelo início e pela expansão do movimento revolucionário, que os outros só aderiram porque ele os convencera e sempre falou com firmeza e coragem, atitudes estas que conservou até o patíbulo.

Vários inconfidentes foram condenados à morte, porém Portugal, por motivos diversos, preferia degredá-los para a África e as Índias. Precisava, entretanto, dar um exemplo que espantasse e fizesse medo a todos os brasileiros, para que eles jamais ousassem novamente tentar libertar-se dos grilhões que os escravizavam aos portugueses. Alguém precisava morrer do modo mais cruel possível, mas quem? O mais importante deles, politicamente? O mais rico? Um intelectual? Não, tinha que ser o mais conhecido da população, o que mais se mostrara brasileiro, o que mais ostensivamente desafiara Portugal: o Alferes Joaquim José da Silva Xavier! Tinha que ser a cabeça do movimento, a pessoa que idealizara a conquista da liberdade e arregimentara a maioria dos conspiradores, e esse homem fora o Alferes, conforme os juizes disseram na sentença que o condenou à morte!

Tiradentes não era nobre, tinha cultura mediana, altura média, era branco, militar de patente média, não era rico nem pobre, não estudou na Europa nem freqüentou colégios pois estes não existiam para o povo, e o que sabia aprendera com um tio e com dois irmãos padres, era enfim um cidadão comum; e ele, um cidadão comum, foi a mais forte personificação de amor à Pátria que nossa história registra.
Por tudo isto o Alferes Joaquim José da Silva Xavier é considerado o Protomártir da Independência e foi declarado Patrono Cívico da Nação Brasileira e Patrono das Polícias Militares e Civis de todos os estados.
Trinta anos depois da morte de Tiradentes a Independência foi proclamada.

Tiradentes, como já mostramos era um homem comum. Não era nenhum Rambo. Era uma pessoa como qualquer um de nós. Só que naquele tempo apenas um homem da raça branca poderia tomar atitudes, mas hoje, se a nação precisar, qualquer um de nós, homem ou mulher de qualquer raça pode fazê-lo, pode ser um novo Tiradentes, desde que sinta o mesmo acendrado amor ao Brasil que ele sentia.

Miremo-nos em Tiradentes. Lembremo-nos de seu civismo. Procuremos imitá-lo.

* Do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais -
Cad. nº 72 - Alferes Joaquim José da Silva Xavier
Coronel Reformado
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