LIVRO - "Bento XVI - Questões de Fé, Ética e Pensamento na Obra de Joseph Ratiznger"

O QUE É A IGREJA

A integridade da Fé (Pág. 21)

"Muitos católicos - afirma ainda Ratzinger - nos últimos anos foram escancarando-se sem filtros e sem freios para o mundo, isto é, para a mentalidade moderna dominante, colocando ademais em discussão as próprias bases do depositum fidei, as quais, para muitos, já não são mais claras."

O Cardeal assumiu seu mandato de Prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé com a consciência bem clara de não ser dono da Fé, mas servo e zelador; a Congregação, conforme ele escreve, "tem a missão de promover e amparar a doutrina da fé e os costumes em todo o orbe católico.

Perseguindo essa missão, ela presta um serviço à verdade, preservando o direito do Povo de Deus de receber a mensagem do Evangelho, na sua pureza e integralidade. Portanto, para que a fé e os costumes não sofram prejuízo por causa de erros divulgados de uma forma ou da outra, ela tem também o dever de examinar os escritos e as opiniões contrárias à retidão da fé ou que se mostrem perigosos".

O dever de transmitir a fé reta (Pág. 21 e 22)

A questão não é impor aos fiéis certos dogmas ou opiniões; o ponto é que os fiéis, no meio da grande confusão de opções fornecidas por teólogos, padres e articulistas, têm o direito de saber qual é a verdadeira, a autêntica doutrina tradicional da Igreja, assim como foi transmitida e mantida desde as origens. Neste sentido, Ratzinger sempre agiu — como ele próprio afirma - enquanto "homem de consciên­cia", o que significa "não colocar o consenso ou um clima ameno de grupo acima da verdade"18. Ele explica: "Nós, padres católicos da minha geração, estamos acostumados a evitar as divergências entre confrades, a buscar sempre o ponto de acordo, a não ficarmos em evidência com posições excêntricas. Assim, em muitas conferências episcopais, o espírito de gru­po, talvez a aspiração à vida tranquila, ou até mesmo o conformismo, levam a maioria a aceitar as posições de minorias ativas e empreendedo­ras, determinadas a ir para direções precisas (...). Aceitando a lei do grupo, evitam o peso de parecerem 'desmancha-prazeres', 'atrasados', 'fechados'. Parece lindo decidir sempre 'juntos'. Dessa forma, porém, perigam deixar de perceber o 'escândalo' e a 'loucura' do evangelho, aquele 'sal' e aquela 'levedura' que hoje são mais indispensáveis do que nunca para o cristão".

A CORAGEM DE OPOR-SE

O grão de mostarda (Pág. 23)

Hoje, mais ainda que nos séculos passados - quando, apesar de tudo, o Cristianismo impregnava profundamente a sociedade ocidental -, o crente deve estar cônscio de que sua religião não é mais a religião da sociedade na qual vive: "Os cristãos são de novo minoria, mais do que já o foram desde o final da Antiguidade". Por isso, "precisa­mos talvez abandonar as ideias de Igreja nacional ou de massa. É provável que haja diante de nós uma época diferente da história da Igreja, uma época nova na qual o Cristianismo, se encontrará na situação do grão de mostarda, em grupos de pequenas dimensões, aparentemente sem influência, que, contudo, vivem intensamente contra o mal e levam o bem no mundo, deixando espaço para Deus".

A Igreja como oposição (Pág. 24)

Ratzinger repete e insiste sobre esse apelo à coragem cristã e à coerência: "Talvez os homens possam perceber que contra a ideologia da banalidade, que domina o mundo, é necessária uma oposição, e que a Igreja possa ser moderna, justamente sendo antimoderna, opondo-se ao que todos dizem. À Igreja cabe o papel de oposição profé¬tica, e ela precisa ter a coragem de assumir este papel". "As estatísticas nos dizem que, mais as Igrejas adaptam-se aos padrões de secularização, mais perdem seguidores, e que se tornam atraentes quando indicam um ponto sólido de referência e uma orientação clara".

Uma ditadura anticristã (Pág. 24)

"Existem ambientes - e não são poucos - nos quais hoje precisa realmente de muita coragem para declarar-se cristãos. Mais que tudo, cresce o perigo de muitos Cristianismos adaptados, que acabam aceitos pela sociedade enquanto formas filantrópicas de ser cris­tãos, a serem contrapostas ao pretenso fundamentalismo daqueles que não querem alinhar-se. Cresce o perigo de uma ditadura da opinião, e quem não acatá-la é isolado e marginalizado, de tal forma que há boa gente que não ousa mais manifestar-se que não pertence a esses grupos. Uma eventual ditadura anticristã do futuro será presumivelmente muito mais sutil que aquelas que conhecemos até agora. Ela se mostrará aparen­temente aberta às religiões, mas com a condição que não mexam no seu modelo de conduta e de pensamento."

Voltaremos sobre tais conceitos mais para a frente. Por enquanto, só queremos destacar essa atitude de fundo, a qual, mesmo que com nuances diferentes desde os anos da juventude até a ascensão ao trono pontifício, sempre caracterizou o percurso espiritual de Ratzinger.

Revolução da Fé (Pág. 24 e 25)

"Eu acho de verdade - ele afirma - que nós precisamos de uma espécie de revolução da fé, num sentido múltiplo. Antes de mais nada, precisamos reencontrar a coragem de ir contra as opiniões comuns. Na maioria dos nossos contemporâneos, difundiu-se uma espécie de ideologia comum, que tem como finalidade alcançar certo bem-estar na vida, e a qual sustenta que precisamos alcançar por própria conta o que desejarmos, as próprias aspirações; e que, no meio disso tudo, Deus nada mais é do que uma entidade de grandeza desconhecida, a qual, de fato, nem precisa ser levada em consideração. Nesse modo de pensar é implícito também o fato que a moral esteja baseada no acaso e na busca de uma felicidade pessoal fundada nos próprios cálculos." Dessa forma, tanto no contexto da Igreja quanto na sociedade civil, "com a desculpa da bondade negligencia-se a consciência, à verdade antepõe-se a busca do consenso, o desejo de evitar contrariedades, a vida tranquila, a própria boa reputação e a bondade'.

O dever de corrigir (Pág. 25 e 26)

Ratzinger explica como nem sempre é fácil para um bispo manter o justo equilíbrio entre harmonia e concórdia dentro da Igreja, e vigilância sobre a reta transmissão da doutrina da fé. "Acho que uma grande preocupação dos bispos - e eu mesmo posso confirmá-lo por expe­riência pessoal sempre foi a de manter unidos os fiéis na grande confusão dos tempos, logo não criar inseguranças que, em discussões públicas, pos­sam pôr os fiéis em choque e conturbar a paz na Igreja. Sempre foi preciso, portanto, perguntar-se, em sentido relativo: o abuso, o comportamento in-correto, o ensinamento desviado, é tão grave assim para que eu tenha que me expor ao estrépito da opinião pública, assim como a todas as inseguran­ças que daquilo pudessem surgir, ou é melhor tentar resolver o caso com calma, ou também tolerar o que por si é intolerável, para evitar dilacerações mais graves? A decisão a ser tomada é sempre difícil, de qualquer forma. Gostaria de dizer, contudo, que a nossa tendência e orientação - eu mesmo pensava assim - era dar valor prioritário ao fato de permanecermos unidos, de evitar conflituosidades públicas, e as feridas e dilacerações que derivam disso. Em relação a isso, foi subestimado o efeito de outras coisas."

Em muitos casos, por exemplo, diante da difusão de livros e ensinamentos desviados em relação à ortodoxia, "nos calamos. Dessa forma, contudo, foi subestimado o fato que toda venenosidade tolerada deixa veneno atrás de si, continua sua ação nefasta e, por fim, acarreta consigo um grave perigo para a fé da Igreja, porque induz à convicção: na Igreja pode-se dizer isto e aquilo, tudo acha seu lugar nela (...). Não quero culpar ninguém indivi­dualmente, só gostaria que, num exame de consciência, chegássemos a um novo entendimento sobre a prioridade da fé e a conscientização dos efeitos a longo prazo desses erros. Precisamos aprender a ver mais clara­mente que a quietude pura e simples não é o primeiro dever cristão, e que a fé pode tornar-se fraca e falsa, se não tiver mais conteúdo".

A coragem de denunciar (Pág. 26)

O próprio Ratzinger deu o exemplo para essas suas palavras, na Sexta-Feira Santa de 2005, quando foi encarregado por João Paulo II, velho e doente, de comentar as estações da Via Crucis do Coliseu: "Quantos ventos de doutrina - disse então o Cardeal - experimentamos nestas últimas décadas, 'quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento! (...) O pequeno barco do pensamento de muitos cristãos foi frequentemente sacudido por essas ondas — jogada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até a libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, e assim por diante. Cada dia nascem novas seitas e realiza-se o que São Paulo diz do engano dos homens, sobre a astúcia que leva ao erro (ver Ef4,l4'). Ter uma fé clara, conforme o Credo da Igreja, é muitas vezes etiquetado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, se deixar levar 'para cá e para lá por qualquer vento de doutrina' parece a única atitude à altura dos tempos atuais. Isto vai constituindo uma ditadura do relativismo, que nada reconhece como definitivo e que tolera como medida última só o próprio ego e suas vontades". E conclui: "Nós temos outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. Ele é a medida do verdadeiro humanismo. 'Adulta' não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profun-damente radicada na amizade com Cristo".

POSSUIR A VERDADE

Conceito de verdade (Pág. 27)

Como veremos mais adiante, para o Cardeal Ratzinger o conceito de verdade é fundamental: isto é, existem verdades objetivas, valores intrinsecamente verdadeiros. Na mentalidade moderna, pelo contrário, consolidou-se a ideia segundo a qual não há nada simplesmente verdadeiro ou bom por si: tudo depende do contexto, da convenência, da utilidade. O homem poderia alcançar, portanto, só diretivas npíricas, utilitárias, e ser-lhe-ia vedada qualquer busca de uma verdade objetiva. Neste sentido, muitas vezes Ratzinger usa como exemplo Sócrates, aquele que, mesmo não sendo cristão, quis buscar a verdade em si mesma, em das opiniões efémeras, mutáveis e inconsistentes dos homens.

A Igreja também segue o mesmo caminho: é buscar e achar a Verdade. desde começo, "o Cristianismo quis ser um iluminismo na continuidade, entre outros, de Sócrates". Portanto, não pode de forma alguma limitar-se a ser uma comunidade de pessoas que celebram algo juntas, ou que trabalham solidariamente para melhorar as condições de vida do planeta.

A pretensão de Verdade da Igreja (Pág. 27 e 28)

"Exigir que as afirmações concretas de uma religião sejam verdade, hoje parece não só presunção arrogante, mas até sinal de 'falta de esclarecimento'. O espírito da nossa época foi formulado por Hans Kelsen, quando propôs a pergunta de Pilatos, 'O que é a verdade?' como única atitude apropriada, em vista dos problemas morais e religiosos da humanidade, em relação à configuração da comunidade estatal. A verdade é substituída pela decisão da maioria, ele sustenta, justamente porque, na opinião dele, a verdade não pode ser considerada uma entidade acessível e vinculadora para todos os homens. Desta forma, a multiplicidade de culturas torna-se prova da relatividade de cada uma. A cultura é contraposta à verdade. Este relativismo, que se tornou hoje o sentimento base da pessoa 'iluminada' e afeta até a teologia, é o maior problema da nossa época. Esta é também a razão pela qual hoje a verdade é substituída pela práxis, e o fulcro das religiões mudou. Não mais sabemos o que é verdade, mas sabemos o que temos de fazer: instaurar uma sociedade melhor, o 'Reino', como é chamado com frequência com uma palavra tirada da Bíblia e utilizada num sentido utópico profano."

A Igreja, pelo contrário, sempre teve e ainda tem a missão de indagar sobre o que é verdadeiro, e se pronunciar a respeito, e não a respeito do que é vantaacafo ou conveniente: "Se todos seus esforços estarão direcionados para contornar conflitos e evitar que surjam contestações e turbulências, estará traindo sua verdadeira missão. Isso porque a mensagem que constitui sua base pretende nos colocar em discussão, nos arrancar da mentira e instaurar clareza e verdade. A verdade não é algo barato".

A arrogância do Relativismo (Pág. 28 e 29)

"A este ponto, outra pergunta decisiva impõe-se. Não é presunção falar de verdade em tema de religião, e até afirmar ter conhecido em sua própria religião a verdade? Aquela verdade única que com certeza não exclui a presença da verdade em outras religiões, mas recompõe numa unidade os fragmentos dispersos? Hoje tornou-se lugar-comum qualificar de iludidos, além de arrogantes, aqueles que podem ser reprovados pela presunção de 'possuir' a verdade. Ao que parece, essas pessoas estão fechadas ao diálogo e, portanto, não poderiam ser levadas a sério. Ninguém 'possui' a verdade. Nós todos podemos sempre e somente ficar em busca dela. Mas poderíamos retrucar: que tipo de busca é aquela em que nunca podemos chegar a uma conclusão? Buscamos de verdade, ou não temos intenção nenhuma de achar (...), já que o objeto da busca nem pode existir? Ademais, isso não reduziria à caricatura o pensa¬mento daqueles aos quais atribui-se a pretensão de 'possuir' a verdade? Em caso nenhum a verdade pode representar a propriedade de alguém; o relacionamento com ela deve ser sempre de adesão humilde, no temor de desmerecê-la. Eu não posso gabar-me, como se fosse algo meu, do dom recebido; é preciso, pelo contrário, saber colocá-lo responsavelmente a serviço dos demais. Até a fé confirma isso: a dessemelhança entre o que nós conhecemos e a Verdade em si é sempre imensamente maior do que a semelhança. Mesmo assim, esta imensa diferença não reduz o conheci¬mento ao não-conhecimento, e a verdade à não-verdade.

Eu acho que a acusação de presunção deveria ser revertida. Não seria por acaso presunção afirmar que Deus não pode nos doar a verdade? Que Ele não é capaz de abrir nossos olhos? Não é desprezo, em relação a Deus, dizer que nascemos irremediavelmente cegos e, portanto, a verdade não nos diz respeito? Não é degradar o homem e seu desejo de Deus, nos considerarmos como condenados a seguir eternamente tateando na escuridão? A verdadeira pre¬sunção aparece quando queremos tomar o lugar de Deus, para estabelecer quem somos, o que podemos decidir, o que queremos fazer de nós mesmos e do mundo. Em verdade, conhecimento e busca não excluem um ao outro.'

Fé e Verdade (Pág. 29)

Geralmente, considera-se que a verdade, concebida como algo "científico" e realmente confiável, esteja necessariamente em contraste com o conceito de fé, que seria pelo contrário uma espécie de "credulidade", uma forma confortável de apoiar-se em ideias já prontas. Mas Ratzinger reverte totalmente essa perspectiva: "Viver no meio de belas ficções pode ser aceitável para um teórico das religiões; para o homem que pergunta com quem e para que viver ou morrer não é suficiente. O fato de despir-se da pretensão à verdade, que seria o mesmo que abandonar a fé cristã como tal, é abrandado nesse caso com a concessão da existência da fé - concebida como uma espécie de apaixonamento, com suas prazerosas consolações objetivas, ou como uma espécie de mundo lúdico à margem do mundo real".

Mas a fé é justamente o contrário de uma "consolação subjetiva": ela é centrada na busca existencial da verdade: "Os precursores do Cristianismo e sua preparação, nesta busca, é a racionalidade filosófica, e não as religiões'. "A fé cristã é, hoje como ontem, a opção para a prioridade da razão e do racional". Senão, "a fé permanece algo irracional, é reduzida de forma fideísta e, portanto, pertence à esfera dos hábitos e não ao âmbito da verdade". E desse modo, acabamos reduzindo a religião a pura tradição, e nesse caso uma religião vale tanto quanto a outra: "As diferentes religiões são vistas como tradições. São consideradas 'veneráveis' e 'belas', e acrescenta-se que cada um deve respeitar a tradição na qual cresceu, e que todas devem respeitar-se mutuamente. Mas se tudo o que temos são tradições, a dimensão da verdade entra em crise. E mais cedo ou mais tarde acabaremos nos perguntando para que ainda respeitar tradição".

A FUNÇÃO DO PAPA

O Papa, guardião da tradição (Pág. 42)

Enquanto em nível disciplinar o Papa tem, até certo ponto, maior liberdade de açao, no que diz respeito à transmissão da doutrina cristã e da moral, ele é vinculado à fidelidade ac depositam. Portanto, "a Primazia difere, em sua própria essência e no pró prio exercício, dos ofícios de governo em vigor nas sociedades humanas não é um ofício de coordenação ou de presidência, tampouco se restringi a uma Primazia honorífica, e também não pode ser concebida como um< monarquia de tipo político. O Pontífice Romano é — como todos os fiéis -submetido à palavra de Deus, à fé católica (...). Ele não decide conform( seu arbítrio, mas empresta sua voz à vontade do Senhor, que fala ao ho mem na Escritura vivida e interpretada pela Tradição". É evidente, por tanto, que o papel do Papa, no que diz respeito à definição da doutrim católica, é num certo sentido mais exíguo do que se acredita habitualmen te hoje: as pessoas acreditam frequentemente que seja o Papa quem decide se um comportamento é moral ou não, e que tenha a autoridade de permitir ou proibir aos católicos certa prática ou doutrina. Mas, como vimos, ele não tem esse poder. Não é tanto nos anúncios papais que devemos procurar o que for conforme à fé católica e o que não for, mas sim nas fonte; acreditadas da Tradição e do Magistério, a começar pela Bíblia e pelo; Padres da Igreja: as palavras do Papa têm somente a função de transmitir e reiterar a Tradição, de explicá-la e interpretá-la corretamente e, por fim, de indicar sua correta aplicação hoje em dia.

O ANSEIO EXISTENCIAL DO HOMEM E A ESCOLHA DA FÉ

Caminho de Fé e de Amor (Pág. 51 e 52)

A fé - afirma Ratzinger, com seu habitual entusiástico anseio para Deus - é "um amor, que sequestra o homem e lhe mostra um caminho para ele seguir, mesmo que essa fé seja cansativa; uma escalada, que parece loucura para o pequeno-burguês, mas que assemelha ser o único caminho possível, que não trocaríamos por conforto nenhum, nós que estamos engajados na aventura".

Estas palavras nos mostram o quanto a fé sempre foi, para Ratzinger, uma experiência pessoal, vivida, nunca uma simples adesão intelectual. Para ele, fé significa iniciar a mudar na vida cotidiana. "É preciso começar deixando de concentrar a atenção sobre nós mesmos, para nos perguntarmos o que Ele quer de nós. É preciso começar aprendendo a amar, isto é, a desviar o olhar de nós mesmos para olhar para Ele. Se, nessa perspectiva, cessarmos de nos perguntar o que podemos obter, nos deixando simplesmente guiar por Ele, nos perdemos em Cristo, nos deixando levar, esquecendo de nós mesmos, então ficará claro como nossa vida coloca-se novamente nos trilhos, porque superamos a restrição egoística, a qual até então nos levava a nos concentrar sobre nossa pessoa. Quando, por assim dizer, saímos do aperto, só então começamos a perceber a grandiosidade da existência."

Resposta aos verdadeiros problemas do homem (Pág. 52)

Para a Igreja, justamente na perspectiva de manter essa essencial dimensão existencial, "é máxima urgência mostrar um modelo cristão de vida, que ofereça u alternativa vivível às diversões cada vez mais vazias da sociedade do lazer que precisa recorrer cada vez mais às drogas porque já está farta dos miseráveis prazeres habituais". Se a Igreja, por outro lado, for se apresentar como instituição de poder, ou sistema ideológico, ou simples tradicão religiosa, as pessoas não encontrarão mais nela as respostas para suas verdadeiras ou mais profundas perguntas; esta é uma das "razões decisivas para o abandono do Cristianismo: seu modelo de vida, como parece claro não convence. Parece limitar o homem em tudo, estragar sua alegria viver, limitar sua liberdade tão preciosa e conduzi-lo, não ao mar aberto como dizem os Salmos - mas à angústia, ao aperto".

"As grandes ideologias" do mundo moderno, com efeito, "como a banalização do homem que não acredita mais em nada e vive largado, construíram um novo paganismo, um paganismo pior, o qual, querendo afã definitivamente Deus, acabou livrando-se do homem. Assim, o homem jaz na poeira". O Cardeal expressava-se assim durante a última Via Crucis de Jõao Paulo II, na Sexta-Feira Santa de 2005; e, pouco antes, elevara sua prece a Deus nesses termos: "Livre-nos do medo da cruz, do medo diante do escái alheio, do medo que nossa vida possa escapar se não agarrarmos tudo o que ela oferece. Ajude-nos a desmascarar as tentações que nos prometem vida, mas cujas ofertas, por fim, nos deixam somente vazios e decepcionados'"

JOSEPH RATZINGER: HOMEM E PAPA

No rastro da tradição (Pág. 181)

Já no discurso por ele pronunciado na conclusão do conclave pelo qual havia sido eleito papa, Bento XVI salientou esse seu particular vínculo com João Paulo II: "Parece que sinto a sua mão que, fortemente, aperta a minha; parece que vejo os seus olhos sorridentes e que ouço suas palavras, particularmente a mim dirigidas nesse momento:

'Não tenha medo!'" Esse vínculo também é, inevitavelmente, um vínculo com toda a Tradição da Igreja. "Quero afirmar, com força, a vontade deci­dida de prosseguir no compromisso da atuação do Concílio do Vaticano, sobre o trilho dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bimilenar tradição da Igreja."

No dia 17 de maio de 2005, durante a missa na Basílica de San Giovanni em Laterano, insistiu naquilo que enquanto Cardeal tantas vezes já tivera a oportunidade de dizer: "O Papa não é um soberano absoluto, cuacaf pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério papal é garantia de obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas sim vincular, constantemente, a si próprio e a Igreja à obediência em rela­ção à palavra de Deus, perante todas as tentativas de adaptação e de diluição, bem como perante cada oportunismo".

Pastor (Pág. 181 e 182)

Conforme a sua índole de homem e de Cardeal, Bento XVI, desde logo, se mostrou extremamente humilde. "Peco-vos compreensão se cometo erros, como acontece a cada homem", disse Ratzinger em 25 de abril, durante visita à Basílica de São Paulo Fora Muros; mas ao mesmo tempo é consciente de ter de guiar os fiéis. "Se é enorme o peso da responsabilida­de depositada sobre minhas pobres costas, é certamente desmedido o poder divino com o qual posso contar: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja' (Mt 16,18). Escolhendo-me Bispo de Roma, c Senhor quis o seu Vigário. Ele me quis 'pedra' sobre a qual todos possarr se apoiar com segurança"556. E indubitavelmente, as multidões de peregri­nos que, naqueles meses, se dirigiram ao trono de São Pedro mostram que os fiéis precisam de uma pedra sólida na qual possam se apoiar e na qua possam confiar.

Homem (Pág. 182)

Nisso tudo, jamais faltou o lado humano do Cristianismo, que sempre foi muito caro para Ratzinger e que, segundo ele, só poderia mesrru vir daquelas zonas do mundo, por exemplo, a América Latina, distante;

algumas vezes, do institucionalismo eclesiástico e do academicismo eurc peu, mas próximos do coração da fé. Em 2000, o Cardeal afirmava: "Maria ( verdadeiramente, a porta que conduz a Cristo. Ainda hoje, ess redescobrimento guiado pela Mãe Santíssima, pelo Cristo vivente, pode espalhar-se da América Latina a todo o Cristianismo cansado e excessivament imbuído de racionalismo, e à humanidade exausta pelo gelo de um mund hipertecnologizado. Vamos de encontro ao futuro com essa confiança".

A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E OS NOVOS DESAFIOS DA IGREJA

A Teologia da Libertação (Pág. 169)

Um dos fenómenos que estremeceram a cristandade, especialmente na América Latina, e que durante anos mereceram atenção por parte do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, é a chamada teologia da libertação, uma reelaboração da fé cristã baseada essencialmente em conceitos sociopolïticos de caráter marxista. Elaborada inicialmente por pensadores europeus, a teologia da libertação logo encontrou fértil terreno em muitos países latino-americanos, onde a pobreza e os regimes opressores induziram a busca de uma libertação que não fosse apenas espiritual e interior.

Segundo Ratzinger, "devemos respeitar as experiências, os sofrimentos, as escolhas humanas, bem como as exigências concretas que existem por trás de certas ideologias. Porém, devemos contestar, de forma extremamente clara, que sejam ainda teologias católicas". Esta, em síntese, é a posição de Ratzinger sobre esse tema. A sua clara oposição à teologia da libertação é motivada, na verdade, por vários fatores.

"O Reino de Deus não é uma entidade política" (Pág. 169 e 170)

Antes de mais nada, "o reino de Deus não é uma entidade política e não oferece, portanto, critérios políticos dos quais possam derivar uma práxis política e uma crítica das realizações políticas". "Eu penso que hoje, a partir de cada decisão, deve­mos deixar claro que nem a religião nem a fé prometem, para qualquer um de nós, que um dia existirá um mundo perfeito. Isso não existe."

A libertação que Cristo promete é interior, é escatológica. "Uma Igreja que celebra o culto da ação, por meio de 'orações' políticas, não serve para ninguém. É totalmente supérflua (...). Do mesmo modo, o padre que é apenas um funcionário social pode ser substituído por psícoterapeutas e outros especialistas." Na América Latina, ao contrário, "a redenção tor­nou-se um processo político para o qual a filosofia marxista oferecia as diretrizes essenciais de conduta". Mas, "quando a política quer ser reden­tora, promete muito. Quando ela deseja realizar a obra de Deus, não se torna divina, mas sim demoníaca".

Ratzinger não desconhece que na teologia da libertação existisse, indubitavelmente, um "fervor religioso, que porém eliminava Deus, e o substituía pela ação política do homem". Portanto, segundo o Cardeal, "em relação à teologia da libertação, era preciso nos pronunciarmos, até mesmo para ajudar os bispos. Existia o risco de uma politização da fé, que a estava empurrando para um engajamento político irresponsável, com o perigo da destruição da dimensão especificamente religiosa".

A verdadeira libertação não é material (Pág. 170)"

"Não se pode abusar das Escrituras e da teologia para tornar absoluta e sacramentar uma teoria sobre a ordem sociopolítica. Esta, por sua própria natureza, é sempre relativa (...). A ilusão tão pouco cristã de poder criar homem e mundo novos sem chamar à conversão, mas agindo somente nas estruturas sociais e económicas, é uma ferida que se abre em sacerdotes e teólogos." É um conceito sobre o qual o Cardeal retorna continuamente: "O lado fundamental para o desenvolvimento e para a sobrevivência de sociedades justas é a educação moral, na qual o homem aprende a usar a sua liberdade".

BIOTECNOLOGIAS E ABORTO

O Alarme da engenharia genética (Pág. 105 e 106)

Uma consequência perigosa do pro­gresso científico e tecnológico, mais ainda do que a poluição e a deterio­ração ambientais, é o fato de que começaram a mexer no homem, violan­do a sagração intrínseca de seu ser, por meio da engenharia genética e das biotecnologias. "Está tudo bem — afirma Ratzinger - enquanto a interven­ção respeita a criação e almeja sanar danos e doenças. Mas na medida em que o homem se auto-elege demiurgo, iludindo-se de poder desfazer e refazer o mundo a seu bel-prazer, ele acaba destruindo a vida."

O mesmo princípio vale no tratamento dos embriões: "Como em qual­quer intervenção médica nos pacientes, devem ser consideradas lícitas as intervenções sobre o embrião humano desde que respeitem a vida e a integridade do embrião, que não impliquem para ele riscos desproporcio­nados, mas que tenham coino finalidade a cura, a melhoria de suas condi­ções de saúde ou sua sobrevivência individual".

Mas "quando vemos agora os homens, dispondo do código genético, colher os frutos da árvore da vida, e se auto-eleger senhores da vida e da morte, desmontando e remontando o código da vida, fica claro que estamos assistindo a tudo o que a humanidade deveria evitar: o homem está ultra­passando a última fronteira.

Graças a essas manipulações, o homem reduz seu semelhante a uma criatura dele. O homem não nasce mais do mistério do amor, além dos eventos tão misteriosos da geração de uma nova vida e do nascimento, mas torna-se o produto de um processo industrial. É fabricado por outros homens. É privado de sua dignidade e do autêntico esplendor da criação. Não sabemos o que acontecerá nesse campo no futuro, mas podemos ter a certeza de que Deus irá opor-se ao último sacrilégio, à definitiva, ímpia autodestruição do homem. Ele irá opor-se à humilhação que representaria para o homem a criação em escala industrial de estirpes de homens escravos. Há confins que não podemos ultrapassar sem nos tornarmos destruidores da criação, sem ir muito além daquele primeiro pecado original e de suas nefastas consequências".

"A soberba .de acharmos que temos condições de produzir o homem tem como consequência a transformação dos homens numa espécie de mercadoria, a serem comprados e vendidos, a serem usados como uma espécie dí armazém para nossos experimentos; experiências com os quais esperamo; superar por nossa conta a morte, enquanto, na verdade, nada mais fazemo; do que humilhar cada vez mais a dignidade do homem. Senhor, ajude-no porque caímos. Ajude-nos a desistir de nossa soberba destrutiva."

A criança é um dom de Deus (Pág. 108 e 109)

"Quando a criança não é mais concebida como um dom mas, em caso de necessidade, até o comissionamos, o limite já foi ultrapassado. Uma operação técnica, como é a fertilização in vitro, substitui o ato de amor." Em conclusão, "essas razões ajudam a compreender por que o ato de amor conjugal seja considerado, no ensino da Igreja, como o único lugar digno da procriação humana": a fecundação artificial homóloga também viola a intimidade e a sacralização da união entre homem e mulher, da forma que Deus a quis.

Aborto e Eutanásia (Pág.109 e 110)

Ligadas a esses mesmos temas, as questões do aborto e da eutanásia são extremamente atuais. Não vem ao caso aqui aprofundarmos a doutrina da Igreja a respeito. Tudo mundo sabe que, desde sempre, ela ensina que, para usar as palavras de Ratzinger, "o ser humano precisa ser respeitado - como pessoa - desde o primeiro instante de sua existência" e, portanto, o aborto equivale ao homicídio. A eutanásia também é homicídio; mas - especifica o Cardeal - ela -"não deve ser confundida com a renún¬cia ao afincamento terapêutico, a qual é legítima até moralmente".

Um documento redigido por Ratzinger para os bispos dos Estados Unidos ilustra bem esse tema: "A Igreja ensina que o aborto ou a eutanásia são pecados graves. A encíclica Evangelium Vitae, em referência a decisões judiciais ou a leis civis que autorizam ou promovem o aborto ou a eufaná sia, estabelece que é 'uma obrigação solene opor-se a elas por meio da desobediência civil (...). No caso de uma lei intrinsecamente injusta, como a que admite o aborto ou a eutanásia, nunca é lícito conformar-se a ela, e tampouco participar de uma campanha de opinião em favor dessa lei, e menos ainda dar-lhe o voto de sufrágio" (n. 73). Os cristãos "são chama¬dos, por um grave dever de consciência, a não colaborar formalmente com as práticas que, mesmo autorizadas pela legislação civil, estão em contraste com a lei de Deus. Com efeito, do ponto de vista moral, nunca é lícito cooperar formalmente com o mal (...). Essa cooperação nunca pode ser justificada nem invocando o respeito da liberdade dos demais, nem tampouco se apoiando no fato que a lei civil a admite e a exige" (n 74)".

A MORAL SEXUAL

A sexualidade hoje (Pág. 112)

O discurso sobre aborto e biotecnologias está estrei¬tamente ligado à concepção que se tem da sexualidade: "Na cultura do mundo 'desenvolvido', cortou-se a ligação entre sexualidade e casamento. Separado do casamento, o sexo ficou sem colocação, ficou sem pontos de referência: tornou-se ao mesmo tempo um problema e um poder onipresente (...). Disso decorrem os experimentos cada vez mais impressionantes - dos quais está cheio o noticiário - de tecnologia, de engenharia médica, nos quais a procriação é colocada independentemente da sexualidade. Com a manipulação biológica estamos assistindo a um processo de cisão entre o homem e a natureza (e até o próprio conceito de natureza é questionado). Tenta-se transformar o homem, manipulá-lo como qualquer outra 'coisa'; nada mais do que um produto planificado ao nosso bel-prazer".

O sexo como mercadoria (Pág. 112 e 113)

O prazer, que é um elemento da sexualidade, tornou-se seu único fim. O que acontece então é que "a força do instinto, especialmente num mundo tão marcado pelo erotismo, fica tão forte que a ligação com a fidelidade e o amor torna-se incompreensível. A sexualidade tornou-se há muito tempo uma mercadoria a ser comprada". Especial­mente hoje: "A possibilidade de transformar a sexualidade numa mercadoria e de difundi-la como tal em grande escala cria possibilidades de alienação, de abuso, que vão bem além do que podia acontecer no passado".

FAMÍLIA, DIVÓRCIO E CELIBATO

A importância da família (Pág. 119)

A questão da família, como se sabe, tem importância central para a Igreja Católica. O Cardeal Ratzinger sempre partilhou da preocupação de João Paulo II em relação ao declïnio. cada vez mais nítido, da "família tradicional" nos países ocidentais, Uma das principais causas por esse declínio é, segundo a Igreja, o crescente individualismo e egocentrismo do homem moderno, assim como seu brusco afastamento da "natureza" e de sua sacralização: "Onde dois seres humanos se dão um para o outro, e juntos doam a vida para suas crianças, ali há sacralização, o mistério da natureza humana, que vai bem além do direito de dispor de si mesmo. Não pertencemos unicamente a nós mesmos. Em cada homem está presente o mistério divino".

Família e Sociedade (Pág. 119)

Em contraste com a mentalidade difundida hoje, segundo a qual o relacionamento de casal é substancialmente uma questão privada, que tem como critério o desejo e o prazer individuais, a Igreja ensina que, especialmente em consideração dos filhos, "o casamento não é uma questão simplesmente privada, mas tem caráter público, social. Disso depende a forma fundamental na qual se estrutura a sociedade", a qual deveria ter como seu fundamento moral e educativo não o Estado, mas a família. À família cabe o papel de célula da sociedade civil e a missão de educar os futuros cidadãos nos valores imorais e cristâs; por isso, "a garantia da liberdade de educação dos pais aos próprios filhos é um direito inalienável", que o Estado nunca deveria violar.

A grandeza do casamento (Pág. 119 e 120)

A família é, de toda forma, algo muito maior ainda. Enquanto sacramento, o casamento é um caminho rumo a Deus, uma estrada de santificação. Não pode, portanto, ser avaliada na base de critérios puramente terrenos, como a situação económica, a satisfação dos deseacaf, etc. Pelo contrário, o casamento ätinge sua forma mais sublime quando se suportam juntos a doença, a perda de reputação, a morte.”

A GLOBALIZAÇÃO

A Globalização (Pág. 72 e 73)

"É uma acusação contra a sociedade globalizada?", pergunta-lhe o entrevistador. "Sim - responde Ratzinger -, porque provoca a perda das peculiaridades originais de cada um e de cada cultura. O que se perde é o nível mais profundo da comunicação humana, que não pode ser instaurado por essas atitudes exteriores superficiais e pelo domínio dos aparelhos e dos instrumentos técnicos. O homem possui dimensões bem mais profundas. A unidade tão superficial provoca a revolta das camadas mais profundas de sua personalidade, contra a homogeneização que a faz sentir escravo.

Podemos dizer que o símbolo da torre babilónica dá o exemplo crítico de uma forma de unificação e de relacionamento com o mundo e com a vida, que somente na aparência criam unidade e elevam o homem. Na realidade, o despojam de sua grandeza e de suas dimensões mais profundas. E, como se não fosse suficiente, o tornam mais perigoso porque, se por um lado consegue fazer muitas coisas, por outro lado sua consciência moral não consegue acompanhar o ritmo de suas capacidades técnicas. Sua força moral não cresceu na mesma medida em que se desenvolveram suas capacidades construtivas e destrutivas. Este é a razão pela qual Deus condena esse tipo de unificação e propõe outra no lugar."

"A unidade de Babel é uniformizadora; os homens são somente um povo e falam um único idioma. A diversidade que Deus quis é como comprimida numa falsa forma de unidade: uma unidade orientada para o poder, a auto-afirmação e a 'glória' (...). Dá para perceber o quanto atual é Babel? Este nosso mundo, tão uniformizado numa mentalidade e num comportamento puramente tecnicista, está construindo para si uma unidade artificiosa de linguagem e de cultura: todos iguais na forma de pensar, de falar, de se vestir, de viver. Mas é justamente essa uniformização que gera a revolta, que se expressa no terrorismo, nas várias formas de levante contra uma existência que aparentemente doa tudo, mas na verdade subtrai tudo, sujeita o homem ao poder e ao prazer, tornando-o impotente e triste."

O colonialismo tecnológico ocidental (Pág. 73)

Essas observações sobre o atual "mundo globalizado" têm também relação com aquela espécie de "colonização" ideológica, económica e tecnológica que o Ocidente rico frequentemente aplica nos países do chamado Terceiro Mundo: "Atrás da solidariedade apa­rente dos modelos de desenvolvimento esconde-se não raro a vontade de ampliar os espaços do próprio domínio, da própria ideologia, do controle dos mercados. Dessa forma foram destruídas antigas estruturas sociais, for­ças espirituais e morais, com consequências que devem soar aos nossos ouvidos como uma única lamentação: Não! Sem Deus as coisas não podem funcionar". "Já percebemos que não é suficiente transmitir capacidades técnicas, conhecimentos e teorias científicas, práticas e estruturas políticas. Tudo isso não serve e pode até resultar prejudicial, se não despertarmos ao mesmo tempo as forças espirituais capazes de dar um sentido para essas técnicas e estruturas, tornando possível sua utilização responsável." Até a Igreja - lembra Ratzinger - corre frequentemente o risco de cair nessa men­talidade materialista: "No quadro da crise geral que caracterizou os anos 1960/1970, alguns missionários chegaram à convicção que a missão - o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo — não fosse mais congenial aos tem­pos: somente a oferta de um serviço de desenvolvimento social faria então mais sentido. Mas como podemos imaginar um desenvolvimento social po­sitivo acompanhado pelo analfabetismo em relação a Deus?".

ISLÃ

Laicismo europeu e fundamentalismo islâmico (Pág. 75)

A respeito do crescente laicismo europeu, e especialmente francês, que pode ser conside­rado uma reação de defesa contra o fundamentalismo islâmico, Ratzinger afirma: "Na minha opinião, o crescimento do fundamentalismo é ele mes­mo provocado, pelo menos em parte, pelo laicismo encarniçado. Trata-se de uma recusa desse mundo por quem rejeita Deus e não respeita o que é sagrado; que se sente totalmente autónomo, que não conhece as leis inatas da pessoa humana e que reconstrói o homem conforme seus próprios moldes de pensamento. Esta perda do sentido do sagrado e do respeito do outro provoca uma reação de autodefesa dentro do mundo árabe e islâmico. Nele, há um desprezo profundo diante da perda do sobrenatural, que eles vêem como uma decadência do homem. O laicismo absolutizado não é, portanto, a resposta ao terrível desafio do fundamentalismo. A única coisa que pode moderar esses radicalismos e possibilitar um equilíbrio no diálogo entre culturas é um senso religioso em união profunda com a razão".

A IDEOLOGIA LAICISTA DA UNIÃO EUROPEIA

A ditadura do Laicismo (Pág. 148)

Quando falta a um Estado determinada regra moral a ser seguida, um "Deus", cuja lei não pode ser violada, a maioria, então, "torna-se uma espécie de divindade contra a qual não se pode recorrer. Caminha-se em direção a "um modelo totalitário", no qual "o aparente caráter científico esconde um dogmatismo intolerante". É o que acontece, atualmente, segundo Ratzinger, em muitos Estados europeus, onde, agora, o "laicismo é uma ideologia".

"Ultimamente, tenho notado, com maior frequência, que o relativismo -quanto mais se torna a forma de pensamento comumente aceita - tende à intolerância, transformando-se num novo dogmatismo. A politícal correctness", com a sua "pressão onipresente", ",quer erguer o reino de um único modo de pensar e falar ( enquanto a fidelidade aos valores tradicionais, e aos conhecimentos que os sustentam, é tachada de intolerância, e o padrão relativista torna-se obrigatório. Considero muito importante contrapor-se a essa obrigação de um novo modelo pseudo-iluminista e ameaça a liberdade de pensamento e também a liberdade religiosa. Na Suécia, um pregador expôs o ensino bíblico sobre a questão da homossexualidade sem rodeios, e por isso foi condenado à detenção: este é apenas um dos exemplos que mostram como o relativismo começa a tomar corpo, surgindo como uma espécie de nova 'confissão', que põe limites às convicções religiosas e procura submetê-la ao superdogma do relativismo'".

A gênese do Laicismo Europeu (Pág. 150)

Ratzinger analisa, do ponto de vista histórico e filosófico, a génese desta "religião laicista" do Ocidente ateu: "No século XIX, a crença no progresso ainda era um vago otimismo, com a marcha triunfal das ciências, esperava-se um progressivo melhoramento das condições do mundo e a chegada de uma espécie de paraíso; no século XX, esta mesma fé assumiu uma conotação política. Por um lado, havia sistemas de orientação marxista Que prometiam ao homem alcançar o reino almejado por meio da política proposta por suas ideologias: uma tentativa que fracassou de maneira clamorosa.

A ONU e a nova Ideologia Laicista (Pág. 150)

Por outro, há as tentativas de construir o futuro, valendo-se, de modo mais ou menos profundo, das fontes das tradição liberais. Essas tentativas vão assumindo uma configuração cada vez mais definida, que recebe o nome de Nova Ordem Mundial. Ganham clara e evidente expressão na ONU e nas suas Conferências Internacionais, em particular aquelas do Cairo e de Pequim, que, em suas propostas de caminhos para se alcançar outras condições de vida, deixam transparecer uma verdadeira filosofia do homem e do mundo novo (...). Esta filosofia não tem a esperança de que os homens, já acostumados à riqueza e ao bem-estar, estejam dispostos a fazer os sacrifícios necessários para alcançarmos um bem-estar geral; então, ela propõe estratégias para reduzir o número de convidados à mesa da humanidade, para que nada ofusque a pretensa felicidade que alguns alcançaram".

LAICISMO, SATANISMO E MAGIA

Os novos ídolos do Ateísmo (Pág. 153)

No contexto do discurso sobre os modernos Estados europeus, que assinalávamos até aqui, este capítulo sobre magia e satanismo poderá parecer fora de sintonia. Para Ratzinger, porém, entre esses dois fenómenos existe certa conexão, pois464 eles têm muitos valores em comum. Ele ressalta com muita perspicácia "o caráter politeísta do ateísmo moderno", sua veneração, ao invés de Deus, a um grande número de deuses, ou mesmo ídolos. "Hoje não existem deuses que pos­sam ser explicitamente definidos como tais. Porém, existem forças diante das quais o homem se dobra. O capital, a propriedade em geral, é uma delas, bem como a ambição. O bezerro de ouro é, sob diversos aspectos, de grande atualidade no mundo ocidental. O risco existe."

"A cultura ateia do Ocidente moderno ainda vive graças à liberação do medo dos demónios operada pelo Cristianismo. Mas se esta luz redentora do Cristo tivesse que se apagar, mesmo com toda a sabedoria e tecnologia, o mundo cairia no terror e no desespero. Já existem sinais da volta dessas forças obscuras, enquanto crescem no mundo os cultos satânicos." Pode-se, de fato, notar "que na sociedade moderna predomina uma profunda insatisfação. Isso acontece, exatamente, onde o bem-estar e a liberdade alcançaram um nível até o momento desconhecido".

Novo paganismo (Pág. 154)

Quanto às raízes dessa sede do oculto, o Cardeal irá apontá-las como "uma mistura de tendências em direção ao divino e ao extravio, que encerra o homem em si mesmo". O entrevistador argu­menta, também: "Eminência, cito alguns dados. Na Itália, o serviço do horóscopo por telefone recebe, anualmente, mais de 10 milhões de cha­madas. Ainda na Itália, existem pelo menos 100 mil magos e menos de 38 mil sacerdotes católicos. Como o senhor analisa essa realidade?". Ratzinger responde: "É o sinal de que estamos diante da ameaça de uma profunda paganização. Isso é o paganismo; é a depravação do destino religioso do homem. Nesta falsa religião, na qual, como já disse, o homem usufrui ou procura usufruir de forças sobrenaturais, existe um desafio fundamental para o nosso trabalho de evangelização: diante da paganização devemos anunciar a realidade libertadora de Deus (...). Muitos enxergam apenas o caminho árduo da religião, o quanto Deus está longe, o quanto não con­seguimos ter experiência d'Ele. E procuram experiências imediatas e rápi­dos prazeres, caindo, assim, na escravidão. Nesse momento de forte tenta­ção pagã, creio que seja necessário anunciarmos o Evangelho em toda sua grandeza e simplicidade como a verdadeira e única libertação".

A NOVA EUROPA E SEUS VALORES

A paganização da Europa (Pág. 155)

O tema da paganizaçào remete ao discurso sobre a moderna realidade política e social, em particular da europeia. Em certas nações .da Europa, na Alemanha, por exemplo, "está em curso uma paganização, sobretudo nas zonas que no passado eram comunistas e, também, no norte do país, onde o protestantismo se decompõe e deixa espaço aberto para o paganismo; o qual nem mais precisa atacar a Igreja, porque a fé se tornou tão ausente que não há mais necessidade de agredi-la". Hoje, portanto, a Igreja segundo Ratzinger, "está destinada a viver numa situação de minoria na Europa, mas reforçando-se espiritual e interiormente. de modo a tornar-se uma esperança para muitos homens".

O nascimento da Europa Atéia (Pág. 155)

É conveniente, nesse momento, ressaltar um discurso feito por Ratzinger no convento de Santa Scolastica, em Subiaco, no dia 1° de abril de 2005, pouco antes de ter sido eleito Papa. Partindo da análise do desenvolvimento do racionalismo iluminista, ele propõe uma interessante explicação do atual laicismo europeu: "A Europa desenvolveu uma cultura que, como nunca antes na história da humanidade, exclui Deus da consciência pública, seja negando-o como um todo, seja conside­rando sua existência algo incerto, que não pode ser comprovado, perten­cendo, portanto, ao âmbito das escolhas subjetivas, e, dessa forma, irrelevante para a vida pública.

A política precisa de Deus (Pág. 160)

Na sociedade e nos governos da Europa atual, Deus. ao contrário, "é fortemente marginalizado. Na vida política parece quase uma indecência falar de Deus. É como se fosse um ataque à liberdade daqueles que não crêem.. O mundo político segue as suas normas e seus caminhos excluindo Deus como algo que não pertence a essa terra. O mesmo acontece no mundo do comércio, da economia e na vida privada. Deus permanece à margem. Ao contrário, me parece necessário redescobrir - e temos forças para isso - que as esferas política e económica também precisam de uma responsabilidade moral, uma responsabilidade que nasce do coração do homem e, em última instância, tem tudo a vera com a presença ou a ausência de Deus. Uma sociedade na qual Deus esta absolutamente ausente se autodestrói. Pudemos ver isso claramente nos grandes regimes totalitários do século passado".

 

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