Novo Dicionário Revolucionário I

Heitor De Paola
A língua conduz o meu sentimento, dirige a minha mente de forma tão mais natural quanto mais inconscientemente eu me entregar a ela. O que acontece se a língua culta tiver sido constituída ou for portadora de elementos venenosos? Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e aparentam ser inofensivas.
Passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar.
VICTOR KLEMPERER - Lingua Tertii Imperii (LTI) – A linguagem do III Reich

Klemperer era um filólogo Judeu convertido ao Luteranismo que, casado com uma ‘ariana’ escapou do Holocausto. Viveu em Dresden e escreveu um extenso diário dos dias de guerra. No pós-guerra permaneceu na zona de ocupação soviética, lecionando na Universidade de Dresden. Seu livro LTI: Notizbuch eines Philologen [i] é precioso para todos quantos se interessam pelas perversões revo-lucionárias de qualquer ideologia. Sobre a linguagem, dizia:

Se puder se expressar com liberdade, qualquer língua consegue dar conta de todos os anseios humanos. As palavras se prestam à razão e ao sentimento, são comunicação, diálogo e monólogo, oração e súplica, ordem e invocação. A linguagem do III Reich só se prestava à invocação. (...) Nela tudo é discurso, arenga, alocução, invocação, incitamento à ação. O estilo é vociferante: quem berra mais alto, ganha. Era o estilo do Ministro da Propaganda (e do próprio Führer).
Desde os últimos estertores do ciclo de governos militares contra-revolucionários iniciou-se no Brasil um novo ciclo revolucionário que visa estabelecer aqui um Estado Totalitário onipotente e onipresente.
Uma das principais áreas de ação foi envenenar lentamente a linguagem, a moral e os costumes da juventude. Deram por perdido os de meia idade e mais velhos. O período que vai de 1985 a 1994, escassos 9 anos, pode ser comparado, modus in rebus, com a República de Weimar sem a I Guerra Mundial, mas após um período de intensas ações revolucionárias no campo e nas cidades. Com certa licença pode-se repetir a afirmação de Klemperer de que a República (democrática) liberou de forma suicida a palavra escrita e falada.
Os revolucionários apareceram em todo esplendor de seu cinismo, hipocrisia e despudor. Diziam que queriam a democracia e respeitavam a Constituição, enquanto atacavam as instituições e se lançaram furiosamente contra tudo que não coubesse na sua ideologia pseudo-democrática, satirizando tudo em sermões onde imperava o ‘você não está pensando direito, junte-se a nós para conhecer a verdade’.
Não vou comentar a já tão discutida No-vilíngua de Orwell, ou o politicamente correto. Abordarei a perversão de expressões já usadas classicamente. O envenenamento da língua produziu não apenas mentes distorcidas, mas também distorções morais e afetivas, pois atingiu a vida pública e a privada, a política, a justiça, a economia, a arte e atinge escolas elementares e até jardins da infância.

1. Primeiramente vejamos a palavra ditadura. Quando a expressão é usada as pessoas, tal qual cães de Pavlov, começam a salivar ódio puro! E isto uma maioria que nem era nascida em 1964 e não tem nenhuma idéia do que realmente se passou. Ela funciona como um mero desencadeador de emoções e age subliminarmente: todos sabem, emocionalmente, o que ela quer dizer, mas racionalmente não são capazes de elaborar um conceito minimamente razoável e muito menos o conhecimento da história. Imediatamente relembram o que lhes foi implantado como um chip mental que a liga com outras palavras como militar, tortura, torturadores, opressão, censura, etc.

2. Fanático, fanatismo: expressões unicamente utilizadas para se referir a Cristãos, principalmente católicos, geralmente acompanhada de intolerante, intolerância. Algumas vezes também usadas como sinônimo de fundamentalismo. Se uma pessoa vai à Missa ou ao Culto e rege sua vida pelos preceitos dos Evangelhos, não aceitando o aborto nem a eutanásia e/ou a união gay nem a adoção de crianças pelos ‘casais’ gays, é intolerante, fanático, fundamentalista e extremista.

3. Extremista: termo antes importante para diferenciar de moderados de qualquer ideologia, passou a ser usado unicamente para quem defende o conservadorismo moral e o liberalismo econômico. É geralmente usado com o adjetivo de direita, ou direitista, jamais um comunista que apoiou os crimes de Stalin é considerado extremista.

4. Histórico: esta é uma palavra que sofreu as maiores distorções! Qualquer insignificância ou besteira que sirva aos propósitos revolucionários, qualquer discurso dos poderosos é histórico. Qualquer encontro de Lula ou Dilma com Chávez ou Kirchner é histórico, mesmo que apenas tomem umas e outras. A distorção foi tão longe que até mesmo para os democratas de verdade, conservadores e liberais, o julgamento do mensalão foi ‘histórico’. Ora, para Calígula, qualquer defecada de Incitatus, seu cavalo nomeado Senador, era histórica! Aliás, no nosso Senado, haja Incitatus!
[I] Publicado em Português pela Editora Contraponto, 2009:Rio, em Tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner, do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância – Módulo Holocausto, USP

Médico, escritor e analista  político.  Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.              http://www.heitordepaola.com

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